terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Romance XII ou De NOSSA SENHORA DA AJUDA

HAVIA VÁRIAS imagens
na capela do Pombal:
e portada de cortinas
e sanefa de damasco
e, no altar, o seu frontal.

São Francisco, Santo Antônio
olhavam para Jesus
que explicava, noite e dia,
com sua simples presença,
a aprendizagem da cruz.

Havia prato e galhetas,
panos roxos e missal;
e dois castiçais de estanho
e vozes puxando rezas,
na capela do Pombal.

(Pequenas imagens
de pouco valor,
os Santos, a Virgem
e Nosso Senhor.)

Aquilo que mais valia
na capela do Pombal
era a Senhora da Ajuda,
com seu cetro, com seu manto,
com seus olhos de cristal.

Sete crianças, na capela,
rezavam, cheias de fê,
à grande Santa formosa.
Eram três de cada lado,
os filhos do almotacé.

Suplicam as sete críanças
que a Santa as livre do mal.
Três menínas, três menínos...
E um grande silêncio reina
na capela do Pombal.

(Mas esse, do meio,
tão sério, quem é?
- Eu, Nossa Senhora,
sou Joaquim José.)

Ah! como fícam pequenos
os doces poderes seus!
Este é sem Anjo da Guarda,
sem estrela, sem madrinha...
Que o proteja a mão de Deus!

Diante deste solitário
na capela do Pombal,
Nossa Senhora da Ajuda
é uma grande imagem triste,
longe do mundo mortal.

(Nossa Senhora da Ajuda,
entre os meninos que estão
rezando aqui na capela,
um vai ser levado à forca
com baraço e com pregão! )

(Salvai-o, Senhora
com o vosso poder,
do triste destino
que vai padecer!)

(Pois vai ser levado à forca,
para morte natural,
esse que não estais ouvindo,
tão contrito, de mãos postas,
na capela do Pombal!)

Sete crianças se levantam.
Todas sete estão de pé,
fitando a Santa formosa,
de cetro, manto e coroa.
- No meio, Joaquim José.

(Agora são tempos de ouro.
Os de sangue vêm depois.
Vêm algemas, vêm sentenças,
vêm cordas e cadafalsos,
na era de noventa e dois.)

(Lá vai um menino
entre seis irmãos.
Senhora da Ajuda,
pelo vosso nome,
estendei-lhe as mãos!)

Cecília Meirelles

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