quarta-feira, 30 de abril de 2008

hilda hilst


*


* "Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem

À ponta dos meus dedos, o ouro da volúpia
E o encanto glabro das avencas
De ti me vem.

De mitos e de águas:
Inaudita
Extrema, toco-te a boca
como quem precisa
Sustentar o fogo
para a própria vida
É úmido de cio, de inocência
É a saudade de mim que me condena
Extrema, inomeada, toco-me a mim
Antes, tão memória
E tão jovem agora.

Hilda Hilst

Primeiros Anos


Primeiros anos

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas.
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

Ferreira Gullar

A Casada Infiel



A casada infiel
volta

Levei-a comigo ao rio,
pensando que era donzela,
porém já tinha marido.
Foi na noite de Santiago
e quase por compromisso.
Os lampiões se apagaram
e acenderam-se os grilos..
Já nas últimas esquinas
toquei seus peitos dormidos,
que pra mim logo se abriram
como ramos de jacintos.
A goma de sua anágua
soava nos meus ouvidos,
como uma peça de seda
rasgada por dez punhais.
Sem luz de prata nas copas
têm as árvores crescido,
e um horizonte de cães
ladrava longe do rio.

*

Já passadas as amoras,
os juncos e os espinhos,
sob sua mata de pêlos
fiz um fojo sobre o limo.
Eu tirei minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu o cinto com o revólver.
E ela seus espartilhos.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina,
nem os cristais ao luar
relumbram com tanto brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos.,
metade cheias de lume,
metade cheias de frio.
Percorri naquela noite
o mais belo dos caminhos,
montado em poltra de nácar
sem rédeas e sem estribos.

Por homem que sou, não digo
as coisas que ela me disse.
A luz do entendimento
faz que eu seja comedido.
Suja de beijos e areia,
me fui com ela do rio.
Contra os ares se batiam
brancas espadas de lírios.

Me portei como quem sou.
Como um gitano legítimo.
Dei-lhe cesta de costura
feita de liso palhiço,
e não quis enamorar-me
porque ela, tendo marido,
me disse que era solteira
quando eu a levava ao rio.


Garcia Lorca - tradução de Ferreira Gullar

sábado, 12 de abril de 2008

"Para uma avenca partindo - fragmento"

“...sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você, ou apenas aquilo que eu queria ver em você,
eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim,
até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que, no fundo, sempre no fundo,
talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?...”

Caio Fernando Abreu - "Para uma avenca partindo-fragmento"