“Se a gente vai ficar maluco por amor
É bem melhor que seja a dois
Pois sendo só é bem pior”
(Papo de Psicólogo/ Jair Oliveira)
Se você me perguntasse do cenário, eu certamente ia enrolar algum canto do Rio de Janeiro e possivelmente ilustraria porque as cores e a geografia dessas ruas, me permitiriam qualquer oratória inspirada. Mas talvez, se houvesse um momento, um pequeno momento de lucidez, eu hesitaria tentar descrever as curvas ou os tons ou ainda a atmosfera e focaria no que, para mim, naquele momento, me fez perder toda a noção de onde, como e quando: o teu olhar. Veja bem, não somente os teus olhos, mas o olhar. Que era manso e me interessava. Que parecia querer dizer alguma história que ainda não sei. Me contar algum fato, alguma dica apenas de quem você poderia ser. O teu olhar preto me interessava e no teu conjunto de formas e detalhes que me causavam uma serena curiosidade, era ele que me fazia perder o compasso.
Depois de três dias te encontrando sem te dizer qualquer palavra, apenas correspondendo o que poderia não ser nada além de um olhar perdido, eu saí mais tarde do trabalho e não peguei o metrô no mesmo horário de sempre. Veja bem, eu não sei absolutamente nada sobre você. Além dos teus olhos escuros, tua pele clara e tua mochila azul, não existe fato algum que me entregue a certeza ou a esperança de que poderíamos, quem sabe, encontrarmo-nos outra noite, saindo eu do trabalho, saindo você de qualquer lugar que te ocupa algumas horas de dedicação e que te faz trilhar o mesmo caminho que eu, embora o destino seja diferente. E por qualquer ironia e também por qualquer sensação de alívio, os destinos precisam ser diferentes. Para que possam se cruzar.
Depois de três dias, eu não te encontrei. Voltei para casa sem te observar me observando, pensando que em alguns casos específicos, a gente precisa agir. Sair da posição inerte de observador e arriscar qualquer intenção, qualquer movimento de atenção, qualquer aleluia que nos salve. Voltei para casa, sem você, pensando que a cidade é grande e que por esse mesmo motivo, talvez eu nunca mais te encontre. Talvez nunca mais você. Porque eu não disse olá, meu nome é tal e pode ser que você pense que eu enlouqueci, mas eu gostei de entrar no metrô e encontrar os teus olhos pretos me esperando, eu sinceramente não sei era para mim que você dirigia o seu olhar ou se olhava para um ponto específico, onde eu apenas entrei no quadro e você não se importou muito ou porque não percebeu ou por não ter feito diferença, como se o lugar para onde você dirigia o seu olhar, não fizesse o menor sentido naquele momento e você estivesse pensando na tua vida que eu não conheço, eu não conheço a tua vida, ou apenas observasse o vagão, as pessoas ao redor e ao entrar no metrô, eu rasgasse a tua imagem, intruso do acaso, pirata sem razão de ser. O fato é que eu sou o fulano e dizendo o meu nome, eu passo a ser aquele cara do metrô que se apresentou, era noite e inverno e enquanto eu te soprava o meu nome, lá fora a cidade estava em movimento contínuo até a próxima estação. Sabendo o meu nome e te dizer o meu nome, indicava um futuro, um desejo de futuro, se você também me disser o seu nome e a gente permitir que o sol ilumine a varanda e as portas, que se foda que todas as minhas metáforas sejam óbvias, mas se você me acusar de louco, eu viro as costas e me misturo aos passageiros, eu sumo do teu campo de visão e volto a ser quem eu era antes de dizer o caminho, antes de te indicar qualquer sinal verde. E se você sorrir e me der atenção, e se você apenas sorrir, eu vou torcer para que você me diga o seu nome, eu vou sinceramente pedir para que você me diga eu sou o fulano. Essa é a primeira informação que você vai me dar e eu vou guardar, como um segredo, desvendando a curiosidade de saber como é o tom da tua voz e mais tarde, quem vai saber, o tom da tua pele e todos os outros tons que eu vou descobrir se você permitir, se eu quiser desvendar.
Uma semana depois, eu já voltava ao metrô sem o desejo de te encontrar e talvez usar assim DESEJO, não signifique, de fato, o que eu gostaria de dizer. Não que não houvesse. Havia. Mas existe qualquer ironia quando bagunçam com a nossa esperança, que a gente perde um tanto da gana, daquela sensação que nos fortalece. A gente quebra uma asa. Até que se recupere. Uma semana depois e quando eu já não esperava mais, de fato, qualquer faísca, submerso pelo péssimo dia ou apenas submerso:
- Você sumiu.
- Você também sumiu.
- Eu senti a tua falta.
- Eu senti a tua falta.
- Loucura isso. Três dias e a gente acaba criando o hábito.
- Eu também acho.
- Depois acaba entrando numa neura de que nunca mais...
- Exato, eu também, eu falo sério, não digo só para concordar. De que nunca mais você vai encontrar alguém. A cidade, os horários, a possibilidade do desencontro é muito maior.
- Exato.
Então, por qualquer safadeza da noite, por qualquer razão fatal, o Maracanã abrigava um jogo de decisão de campeonato e no exato momento em que finalmente ele se aproximou antes que eu pudesse saber sua presença, as portas do vagão cheio se abriram e muitos torcedores entraram empurrando, de maneira que nossos corpos, tão próximos, finalmente tão próximos, foram se afastando e se misturando à multidão animada. Onde estava cheio, ficou insuportável. Onde antes eu podia perceber seu rosto e o tom da sua voz, depois houve baderna e tantos corpos quanto o vagão podia suportar. Quando chegamos à plataforma do Maracanã, eu fui empurrado para fora do metrô e eu segui o fluxo, porque tentar retornar seria ir contra a maré. Seria tentar voltar, em vão, sabendo que eu não conseguiria. Sempre disseram que a multidão é mais forte que o indivíduo e eu não pude discordar. Eu não acredito, eu pensava e repetia e quase gritava que eu não acredito e qual é a de quem decide que os fatos aconteçam? Quem determina? Como é que fica? Eu não acredito. Quando eu saí do fluxo para retornar ao metrô, eu estava sob a rampa de acesso da entrada do estádio. De lá de cima, eu pude ver a lua. Eu pude ver as ruas. Eu pude respirar e dizer eu não acredito olhando o céu escuro, sentindo o vento frio cortar o rosto. O indivíduo precisa ser mais forte que a multidão. Um jogador decide um jogo, um jogador decide um jogo.
Desci a escada. Quando eu cheguei na estação, eu senti uma mão no ombro:
- Eu me chamo Luciano e caso um avião caia ou o mar invada a cidade, esse é o meu telefone.
FONTE: COPIADO DO BLOG DO EGÍDIO "MÍNIMOS ÓBVIOS"

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