...dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui...
Caio Fernando Abreu
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim."
Caio Fernando Abreu em "Limite Branco"
Caio Fernando Abreu em "Limite Branco"
domingo, 27 de janeiro de 2008
"Não acredita que se possa morrer de mediocridade? Pois morre-se. Os médicos é que dão nomes diferentes, mas estou convicto de que cada doença corresponde exatamente a um estado de pressão moral que muitas vezes é ignorado pelo próprio paciente...uma coisa misteriosa, afinal. Mas há um outro que vela constantemente dentro de nós, e este sabe, tenho certeza."
Lucio Cardoso
Lucio Cardoso
sábado, 26 de janeiro de 2008
De montanhas e barcas nada sei.
Mas sei a trajetória de uma altura
E certa fundura de águas
E há de me levar a ti uma das duas.
De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio
de avessos
Para tocar a luz do teu começo.
Das pedras só conheço as ágatas.
Mas arranco do xisto as esmeraldas
Se me disseres que é o verde a dádiva
Que responde as perguntas da Ilusão.
E posso me ferir no gelo das espadas
Se me quiseres banhada de vermelho.
Em minhas muitas vidas hei de te perseguir.
Em sucessivas mortes hei de chamar este
teu ser sem nome
Ainda que por fadiga ou plenitude,
destruas o poeta
Destruindo o Homem.
Hilda Hilst
Mas sei a trajetória de uma altura
E certa fundura de águas
E há de me levar a ti uma das duas.
De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio
de avessos
Para tocar a luz do teu começo.
Das pedras só conheço as ágatas.
Mas arranco do xisto as esmeraldas
Se me disseres que é o verde a dádiva
Que responde as perguntas da Ilusão.
E posso me ferir no gelo das espadas
Se me quiseres banhada de vermelho.
Em minhas muitas vidas hei de te perseguir.
Em sucessivas mortes hei de chamar este
teu ser sem nome
Ainda que por fadiga ou plenitude,
destruas o poeta
Destruindo o Homem.
Hilda Hilst
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
"Eu peço um cigarro e ela me atira o maço na cara como quem joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angústia, saco, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, ah não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, eu só queria era ser feliz, cara, gorda, burra, alienada e completamente feliz. "
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
São Paulo, 12 de agosto de 1987.
Querida mãe, querido pai,
Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.
Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.
Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho,
Caio.
Querida mãe, querido pai,
Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.
Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.
Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho,
Caio.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
"Existem mulheres elegantes, e mulheres enfeitadas."
"A modéstia é a maior de todas as vaidades."
"Nao levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão"
"Marcela me amou
durante quinze meses e onze contos réis; nada menos".
"Deus, para a felicidade do homem, criou a religião e o amor. Mas o demônio, invejoso do sucesso de Deus, fez com que o homem confundisse a religião com a igreja e o amor com o casamento."
"Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
"Amor repelido é amor multiplicado."
Machado de Assis
"A modéstia é a maior de todas as vaidades."
"Nao levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão"
"Marcela me amou
durante quinze meses e onze contos réis; nada menos".
"Deus, para a felicidade do homem, criou a religião e o amor. Mas o demônio, invejoso do sucesso de Deus, fez com que o homem confundisse a religião com a igreja e o amor com o casamento."
"Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
"Amor repelido é amor multiplicado."
Machado de Assis
"É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada."
Luis Buñuel
Luis Buñuel
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
Ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
Ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
Ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
Ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor!
Carlos Drummond de Andrade
ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
Ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
Ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
Ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
Ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor!
Carlos Drummond de Andrade
."..impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar esse rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.
Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro e relacionamento e rompimento e afeto, teria dito também estima e consideração e mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado."
Caio Fernando Abreu em "Os Sapatinhos Vermelhos"
Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro e relacionamento e rompimento e afeto, teria dito também estima e consideração e mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado."
Caio Fernando Abreu em "Os Sapatinhos Vermelhos"
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. "
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Fernando Pessoa
Mestre
Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!
Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.
Álvaro de Campos
Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...
Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!
Feliz o homem marçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.
Álvaro de Campos
Romance XII ou De NOSSA SENHORA DA AJUDA
HAVIA VÁRIAS imagens
na capela do Pombal:
e portada de cortinas
e sanefa de damasco
e, no altar, o seu frontal.
São Francisco, Santo Antônio
olhavam para Jesus
que explicava, noite e dia,
com sua simples presença,
a aprendizagem da cruz.
Havia prato e galhetas,
panos roxos e missal;
e dois castiçais de estanho
e vozes puxando rezas,
na capela do Pombal.
(Pequenas imagens
de pouco valor,
os Santos, a Virgem
e Nosso Senhor.)
Aquilo que mais valia
na capela do Pombal
era a Senhora da Ajuda,
com seu cetro, com seu manto,
com seus olhos de cristal.
Sete crianças, na capela,
rezavam, cheias de fê,
à grande Santa formosa.
Eram três de cada lado,
os filhos do almotacé.
Suplicam as sete críanças
que a Santa as livre do mal.
Três menínas, três menínos...
E um grande silêncio reina
na capela do Pombal.
(Mas esse, do meio,
tão sério, quem é?
- Eu, Nossa Senhora,
sou Joaquim José.)
Ah! como fícam pequenos
os doces poderes seus!
Este é sem Anjo da Guarda,
sem estrela, sem madrinha...
Que o proteja a mão de Deus!
Diante deste solitário
na capela do Pombal,
Nossa Senhora da Ajuda
é uma grande imagem triste,
longe do mundo mortal.
(Nossa Senhora da Ajuda,
entre os meninos que estão
rezando aqui na capela,
um vai ser levado à forca
com baraço e com pregão! )
(Salvai-o, Senhora
com o vosso poder,
do triste destino
que vai padecer!)
(Pois vai ser levado à forca,
para morte natural,
esse que não estais ouvindo,
tão contrito, de mãos postas,
na capela do Pombal!)
Sete crianças se levantam.
Todas sete estão de pé,
fitando a Santa formosa,
de cetro, manto e coroa.
- No meio, Joaquim José.
(Agora são tempos de ouro.
Os de sangue vêm depois.
Vêm algemas, vêm sentenças,
vêm cordas e cadafalsos,
na era de noventa e dois.)
(Lá vai um menino
entre seis irmãos.
Senhora da Ajuda,
pelo vosso nome,
estendei-lhe as mãos!)
Cecília Meirelles
HAVIA VÁRIAS imagens
na capela do Pombal:
e portada de cortinas
e sanefa de damasco
e, no altar, o seu frontal.
São Francisco, Santo Antônio
olhavam para Jesus
que explicava, noite e dia,
com sua simples presença,
a aprendizagem da cruz.
Havia prato e galhetas,
panos roxos e missal;
e dois castiçais de estanho
e vozes puxando rezas,
na capela do Pombal.
(Pequenas imagens
de pouco valor,
os Santos, a Virgem
e Nosso Senhor.)
Aquilo que mais valia
na capela do Pombal
era a Senhora da Ajuda,
com seu cetro, com seu manto,
com seus olhos de cristal.
Sete crianças, na capela,
rezavam, cheias de fê,
à grande Santa formosa.
Eram três de cada lado,
os filhos do almotacé.
Suplicam as sete críanças
que a Santa as livre do mal.
Três menínas, três menínos...
E um grande silêncio reina
na capela do Pombal.
(Mas esse, do meio,
tão sério, quem é?
- Eu, Nossa Senhora,
sou Joaquim José.)
Ah! como fícam pequenos
os doces poderes seus!
Este é sem Anjo da Guarda,
sem estrela, sem madrinha...
Que o proteja a mão de Deus!
Diante deste solitário
na capela do Pombal,
Nossa Senhora da Ajuda
é uma grande imagem triste,
longe do mundo mortal.
(Nossa Senhora da Ajuda,
entre os meninos que estão
rezando aqui na capela,
um vai ser levado à forca
com baraço e com pregão! )
(Salvai-o, Senhora
com o vosso poder,
do triste destino
que vai padecer!)
(Pois vai ser levado à forca,
para morte natural,
esse que não estais ouvindo,
tão contrito, de mãos postas,
na capela do Pombal!)
Sete crianças se levantam.
Todas sete estão de pé,
fitando a Santa formosa,
de cetro, manto e coroa.
- No meio, Joaquim José.
(Agora são tempos de ouro.
Os de sangue vêm depois.
Vêm algemas, vêm sentenças,
vêm cordas e cadafalsos,
na era de noventa e dois.)
(Lá vai um menino
entre seis irmãos.
Senhora da Ajuda,
pelo vosso nome,
estendei-lhe as mãos!)
Cecília Meirelles
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
domingo, 20 de janeiro de 2008
"Minhas feridas estavam cicatrizando. Podia agüentar um pouco de sombra. Imagine se eu pudesse pular abismos para sempre. Talvez depois de um descanso eu pudesse me jogar outra vez da beirada. Talvez. Eu pensava: dê um tempo. Tente se sentir melhor. O mundo inteiro é um saco de merdas se rasgando. Não posso salvá-lo. Sei que nos movemos em direção à miragem, nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo. Eu sabia que nove décimos de mim já havia morrido, mas eu guardava o décimo restante como uma arma."
Bukowski
Bukowski
"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."
Hilda Hilst
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."
Hilda Hilst
sábado, 19 de janeiro de 2008
Auto-retrato
"Aquella voz cansada, algo tenía
de nostalgia, de amor, de sueños idos;
era la ténue voz de los caidos
la voz, quizá, de la melancolía.
Una voz que entre sombras debatía
el derecho final de los vencidos
de ocultar sus recuerdos entre olvidos
de pedir que, por fin, termine el día.
Pero el día del hombre, sólo expira
cuando la luz se entrega al horizonte
y al silencio, el sonido de su lira,
exhala en un cantar, postrero aliento
desgranando lamentos sobre el monte
para ser por siempre uno con el viento."
Jose Dasilva Navia
Inconstância
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…
Florbela Espanca
Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…
Florbela Espanca
"não compreendo o olho e tento chegar perto.
Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hein? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds, my name is Hillé, mein name madame D, Ehud is my husband, mio marito, mi hombre, o que é um homem?"
Hilda Hist
Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hein? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds, my name is Hillé, mein name madame D, Ehud is my husband, mio marito, mi hombre, o que é um homem?"
Hilda Hist
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não
seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira,
pura...enquanto durar....“
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não
seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira,
pura...enquanto durar....“
domingo, 13 de janeiro de 2008
Chorei três horas, depois dormi dois dias.
Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia.
Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?
Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
Mas existe uma tranqüilidade estranha. Não tenho mais nada a perder. Não sabia que o mundo era assim duro, assim sujo. Agora sei. Tenho apenas essa consciência, que só a loucura ou uma lavagem cerebral poderiam turvar. Sobrevivo todos os dias à morte de mim mesmo. Sinto como uma virilidade correndo no sangue.
A vida é mesmo doida. Talvez eu já não esteja completamente aqui. Nem lá, seja onde for. Antes de viajar, fico pairando. Talvez a alma parta antes, e não saiba direito para onde ir sem o corpo. Na morte deve ser parecido.
Caio Fernando Abreu in "Lixo e Purpurina"
Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia.
Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?
Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
Mas existe uma tranqüilidade estranha. Não tenho mais nada a perder. Não sabia que o mundo era assim duro, assim sujo. Agora sei. Tenho apenas essa consciência, que só a loucura ou uma lavagem cerebral poderiam turvar. Sobrevivo todos os dias à morte de mim mesmo. Sinto como uma virilidade correndo no sangue.
A vida é mesmo doida. Talvez eu já não esteja completamente aqui. Nem lá, seja onde for. Antes de viajar, fico pairando. Talvez a alma parta antes, e não saiba direito para onde ir sem o corpo. Na morte deve ser parecido.
Caio Fernando Abreu in "Lixo e Purpurina"
Ódio?
Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca
Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca
"Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la..."
Caio Fernando Abreu - fragmentos
Caio Fernando Abreu - fragmentos
"Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço...Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena... freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente...Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se..."
Caio Fernando Abreu - fragmentos
Caio Fernando Abreu - fragmentos
Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de: A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.
Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.
Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos - enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.
Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.
Transformações - uma fábula - Caio Fernando Abreu
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de: A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.
Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.
Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos - enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.
Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.
Transformações - uma fábula - Caio Fernando Abreu
sábado, 12 de janeiro de 2008
Proverbios y Cantares
(Antonio Machado)
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.
(Antonio Machado)
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Psicologia Ocidental
Category: Books
Genre: Religion & Spirituality
Author: OSHO
O homem pode ser considerado de três maneiras: em termos do normal, do anormal e do supernormal. A psicologia ocidental está basicamente relacionada com o anormal, o patológico, com o homem que caiu do normal, que caiu da norma. A psicologia oriental, o tantra e o ioga, consideram o homem do ponto de vista do supernormal - daquele que foi além da norma. Ambos são anormais. Aquele que é patológico é anormal por que não é saudável e aquele que é supernormal é anormal porque é mais saudável do que qualquer ser humano normal. A diferença é entre negativo e positivo.
A psicologia ocidental se desenvolveu como parte da psicoterapia. Freud, Jung, Adler e outros psicólogos estavam tratando do homem anormal, do homem que está mentalmente doente. Devido a isso toda a atitude ocidental para com o homem se tornou errada. Freud estava estudando casos patológicos. Naturalmente, nenhum homem saudável chegaria até ele - somente quem estivesse mentalmente doente. Essas pessoas eram estudadas por ele e, por causa desse estudo, ele pensou que agora entendia o homem. Os homens patológicos não são verdadeiramente homens; eles estão doentes e qualquer coisa baseada em um estudo deles está fadada a ser profundamente errada e danosa. Isso demonstrou ser danoso porque o homem é olhado de um ponto de vista patológico. Se um estado mental particular é escolhido e esse estado é doente, patológico, então toda a imagem do homem se torna baseada na doença. Por causa dessa atitude, toda a sociedade ocidental caiu de nível - porque o homem doente torna-se a base – o pervertido se tornou a fundação.
E se você estuda apenas o anormal, você não pode conceber nenhuma possibilidade de seres supernormais. Um buda é impossível para Freud, inconcebível. Ele deve ser fictício, mitológico. Um buda não pode ser uma realidade. Freud entrou em contato somente com homens doentes que não eram nem mesmo normais e tudo o que ele diz sobre o homem normal está baseado no estudo do homem anormal. É como um médico que está fazendo um estudo. Nenhum homem saudável vai até ele, não há necessidade. Somente pessoas não saudáveis chegarão. Estudando tantas pessoas não saudáveis, ele cria uma imagem do homem em sua mente, mas essa imagem não pode ser do homem. Ela não pode ser, porque o homem não é apenas doente. E se você embasa sua concepção do homem na doença, toda a sociedade irá sofrer.
A psicologia oriental, particularmente o tantra e o ioga, também têm um conceito de homem, mas esse conceito está baseado no estudo do supernormal - Buda, Patanjali, Shankara, Nagarjuna, Kabir, Nanak -, em pessoas que atingiram o pico da potencialidade e possibilidade humana. O mais baixo não foi considerado, apenas o mais alto. Se você considera o mais alto sua mente se torna uma abertura; você pode crescer porque agora faculdades mais elevadas são possíveis. Se você considera o mais baixo, nenhum crescimento é possível. Não existe desafio. Se você é normal você se sente feliz. É suficiente que você não seja pervertido, que você não esteja em um asilo mental. Você pode se sentir bem, mas não há nenhum desafio.
Mas se você busca o supernormal, a mais alta possibilidade que você pode se tornar, se alguém realizou essa possibilidade, se essa possibilidade se tornou verdadeira para alguém, então uma possibilidade para crescer se abre. Você pode crescer. Um desafio chega até você e você não precisa ficar satisfeito consigo mesmo: faculdades mais elevadas são possíveis e elas o estão chamando. Isso precisa ser entendido profundamente. Somente então a psicologia do tantra será concebível. O que você é não é o final. Você está apenas no meio. Você pode cair, você pode se elevar. Seu crescimento não acabou. Você não é o produto final; você é apenas uma passagem. Alguma coisa está constantemente crescendo em você.
O tantra concebe e baseia todas as suas técnicas nesta possibilidade de crescimento. E lembre-se, a menos que você se torne aquilo que você pode se tornar, você não ficará realmente satisfeito. Você deve se tornar aquilo que você pode se tornar - isso é um dever! Do contrário, você ficará frustrado, você se sentirá sem sentido, sentirá que não existe nenhum propósito na vida. Você pode continuar, mas não existirá alegria nisso. E você pode ter sucesso em muitas outras coisas, mas irá fracassar consigo mesmo. E isso está acontecendo. Alguém se torna muito rico e todo mundo pensa que agora ele teve sucesso. Todo mundo, exceto ele mesmo, pensa que ele teve sucesso. Ele conhece o seu fracasso. A riqueza está presente, mas ele está fracassado. Um grande homem, um líder, um político - todo mundo pensa que eles são bem-sucedidos, mas eles fracassaram. Este mundo é estranho: você tem sucesso aos olhos de todo mundo, exceto aos seus próprios.
As pessoas chegam a mim diariamente. Elas dizem que têm tudo, mas e agora? Elas estão fracassadas. Mas onde elas fracassaram? No que concerne às coisas exteriores elas não fracassaram; assim, por que sentem esse fracasso? Sua potencialidade interior permaneceu potencial. Elas não floriram. Elas não atingiram o que Maslow chama "auto-realização". Elas são fracassos - fracassos interiores. E, basicamente, o que os outros dizem é sem sentido. O que você sente é significativo. Se você sente que é um fracasso, os outros podem pensar que você é um Napoleão ou um Alexandre, o Grande, mas isso não faz diferença. Ao contrário, isso o deprime mais. Todo mundo pensa que você é um sucesso e agora você não pode dizer que você não é - mas você sabe que você não é. Você não pode enganar a si mesmo. No que se refere à auto-realização, você não pode se enganar. Mais cedo ou mais tarde você terá que visitar a si mesmo e olhar profundamente dentro de si, no que tem acontecido. A vida é desperdiçada. Você largou uma oportunidade e juntou coisas que não significam nada.
A auto-realização se refere ao mais alto pico de seu crescimento, onde você pode sentir um profundo contentamento, onde você pode dizer: "Este é meu destino, era por isso que eu estava esperando, é por isso que eu estou aqui na terra".
Osho, The Book of the secrets, V2, #47
Genre: Religion & Spirituality
Author: OSHO
O homem pode ser considerado de três maneiras: em termos do normal, do anormal e do supernormal. A psicologia ocidental está basicamente relacionada com o anormal, o patológico, com o homem que caiu do normal, que caiu da norma. A psicologia oriental, o tantra e o ioga, consideram o homem do ponto de vista do supernormal - daquele que foi além da norma. Ambos são anormais. Aquele que é patológico é anormal por que não é saudável e aquele que é supernormal é anormal porque é mais saudável do que qualquer ser humano normal. A diferença é entre negativo e positivo.
A psicologia ocidental se desenvolveu como parte da psicoterapia. Freud, Jung, Adler e outros psicólogos estavam tratando do homem anormal, do homem que está mentalmente doente. Devido a isso toda a atitude ocidental para com o homem se tornou errada. Freud estava estudando casos patológicos. Naturalmente, nenhum homem saudável chegaria até ele - somente quem estivesse mentalmente doente. Essas pessoas eram estudadas por ele e, por causa desse estudo, ele pensou que agora entendia o homem. Os homens patológicos não são verdadeiramente homens; eles estão doentes e qualquer coisa baseada em um estudo deles está fadada a ser profundamente errada e danosa. Isso demonstrou ser danoso porque o homem é olhado de um ponto de vista patológico. Se um estado mental particular é escolhido e esse estado é doente, patológico, então toda a imagem do homem se torna baseada na doença. Por causa dessa atitude, toda a sociedade ocidental caiu de nível - porque o homem doente torna-se a base – o pervertido se tornou a fundação.
E se você estuda apenas o anormal, você não pode conceber nenhuma possibilidade de seres supernormais. Um buda é impossível para Freud, inconcebível. Ele deve ser fictício, mitológico. Um buda não pode ser uma realidade. Freud entrou em contato somente com homens doentes que não eram nem mesmo normais e tudo o que ele diz sobre o homem normal está baseado no estudo do homem anormal. É como um médico que está fazendo um estudo. Nenhum homem saudável vai até ele, não há necessidade. Somente pessoas não saudáveis chegarão. Estudando tantas pessoas não saudáveis, ele cria uma imagem do homem em sua mente, mas essa imagem não pode ser do homem. Ela não pode ser, porque o homem não é apenas doente. E se você embasa sua concepção do homem na doença, toda a sociedade irá sofrer.
A psicologia oriental, particularmente o tantra e o ioga, também têm um conceito de homem, mas esse conceito está baseado no estudo do supernormal - Buda, Patanjali, Shankara, Nagarjuna, Kabir, Nanak -, em pessoas que atingiram o pico da potencialidade e possibilidade humana. O mais baixo não foi considerado, apenas o mais alto. Se você considera o mais alto sua mente se torna uma abertura; você pode crescer porque agora faculdades mais elevadas são possíveis. Se você considera o mais baixo, nenhum crescimento é possível. Não existe desafio. Se você é normal você se sente feliz. É suficiente que você não seja pervertido, que você não esteja em um asilo mental. Você pode se sentir bem, mas não há nenhum desafio.
Mas se você busca o supernormal, a mais alta possibilidade que você pode se tornar, se alguém realizou essa possibilidade, se essa possibilidade se tornou verdadeira para alguém, então uma possibilidade para crescer se abre. Você pode crescer. Um desafio chega até você e você não precisa ficar satisfeito consigo mesmo: faculdades mais elevadas são possíveis e elas o estão chamando. Isso precisa ser entendido profundamente. Somente então a psicologia do tantra será concebível. O que você é não é o final. Você está apenas no meio. Você pode cair, você pode se elevar. Seu crescimento não acabou. Você não é o produto final; você é apenas uma passagem. Alguma coisa está constantemente crescendo em você.
O tantra concebe e baseia todas as suas técnicas nesta possibilidade de crescimento. E lembre-se, a menos que você se torne aquilo que você pode se tornar, você não ficará realmente satisfeito. Você deve se tornar aquilo que você pode se tornar - isso é um dever! Do contrário, você ficará frustrado, você se sentirá sem sentido, sentirá que não existe nenhum propósito na vida. Você pode continuar, mas não existirá alegria nisso. E você pode ter sucesso em muitas outras coisas, mas irá fracassar consigo mesmo. E isso está acontecendo. Alguém se torna muito rico e todo mundo pensa que agora ele teve sucesso. Todo mundo, exceto ele mesmo, pensa que ele teve sucesso. Ele conhece o seu fracasso. A riqueza está presente, mas ele está fracassado. Um grande homem, um líder, um político - todo mundo pensa que eles são bem-sucedidos, mas eles fracassaram. Este mundo é estranho: você tem sucesso aos olhos de todo mundo, exceto aos seus próprios.
As pessoas chegam a mim diariamente. Elas dizem que têm tudo, mas e agora? Elas estão fracassadas. Mas onde elas fracassaram? No que concerne às coisas exteriores elas não fracassaram; assim, por que sentem esse fracasso? Sua potencialidade interior permaneceu potencial. Elas não floriram. Elas não atingiram o que Maslow chama "auto-realização". Elas são fracassos - fracassos interiores. E, basicamente, o que os outros dizem é sem sentido. O que você sente é significativo. Se você sente que é um fracasso, os outros podem pensar que você é um Napoleão ou um Alexandre, o Grande, mas isso não faz diferença. Ao contrário, isso o deprime mais. Todo mundo pensa que você é um sucesso e agora você não pode dizer que você não é - mas você sabe que você não é. Você não pode enganar a si mesmo. No que se refere à auto-realização, você não pode se enganar. Mais cedo ou mais tarde você terá que visitar a si mesmo e olhar profundamente dentro de si, no que tem acontecido. A vida é desperdiçada. Você largou uma oportunidade e juntou coisas que não significam nada.
A auto-realização se refere ao mais alto pico de seu crescimento, onde você pode sentir um profundo contentamento, onde você pode dizer: "Este é meu destino, era por isso que eu estava esperando, é por isso que eu estou aqui na terra".
Osho, The Book of the secrets, V2, #47
Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
"Eu te levo comigo por onde passar, essa certeza é um sopro que te deixo. Levo com orgulho. Levo com amor de homem que foi tocado por outra pessoa, fez sua revolução e viu brotar sensibilidade e poesia. Levo como tesouro precioso de quem aprendeu e ensinou. De quem se perdeu e não se encontrou. De quem mudou os objetos de lugar e estranhou. Esse desfecho não é o ideal. Mas estou em busca e no meio do caminho, encontrei uma certeza. Nossa história não termina. Ela prossegue. Obrigado pelo quase. Perdoe pelo definitivo.
Também eu tenho medo."
Egídio La Pasta Jr.
Também eu tenho medo."
Egídio La Pasta Jr.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada.Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho:o de mais nada fazer"
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Desaparecido
"Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a caminar"
Manu Chao
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a caminar"
Manu Chao
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."
Caio Fernando Abreu
Os Dragões não conhecem o Paraíso- A Outra Voz.
Caio Fernando Abreu
Os Dragões não conhecem o Paraíso- A Outra Voz.
...medo de ficar sozinha?...
Tem coisa melhor que ficar sozinha, poder escolher com quem quer conversar, sair, transar...nunca fui tão feliz e CALMA como agora que tenho toda a liberdade para escolher e descartar uma companhia...arranje um gato(animal)...eu tenho 3...quando você ficar carente, faça um carinho neles...geralmente eles gostam e vem te acarinhar também...tem sempre um que arranha...aí você deixa ele de lado até ele se acalmar...mais não vai ter discussões sobre o relacionamento, caras fechadas...aquele clima horrível(fui casada duas vezes)...tb não acho que o casamento seja totalmente ruim...agora bom mesmo é a alegria de chegar em casa cansada do trabalho e não precisar conversar com ninguém...se der vontade, telefone ou tecle,mas com quem você escolheu para aquele momento e não com a pessoa que está sempre ali.
Beijos, linda, somos ou não somos mulheres do nosso tempo. Estudamos e trabalhamos para isso.Para poder mandar embora e para poder manter, se valer a pena.
Denise Soares Miranda
Tem coisa melhor que ficar sozinha, poder escolher com quem quer conversar, sair, transar...nunca fui tão feliz e CALMA como agora que tenho toda a liberdade para escolher e descartar uma companhia...arranje um gato(animal)...eu tenho 3...quando você ficar carente, faça um carinho neles...geralmente eles gostam e vem te acarinhar também...tem sempre um que arranha...aí você deixa ele de lado até ele se acalmar...mais não vai ter discussões sobre o relacionamento, caras fechadas...aquele clima horrível(fui casada duas vezes)...tb não acho que o casamento seja totalmente ruim...agora bom mesmo é a alegria de chegar em casa cansada do trabalho e não precisar conversar com ninguém...se der vontade, telefone ou tecle,mas com quem você escolheu para aquele momento e não com a pessoa que está sempre ali.
Beijos, linda, somos ou não somos mulheres do nosso tempo. Estudamos e trabalhamos para isso.Para poder mandar embora e para poder manter, se valer a pena.
Denise Soares Miranda
Fanatismo
Minha' alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...
Florbela Espanca - soneto popularizado pela música de Fagner
Minha' alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...
Florbela Espanca - soneto popularizado pela música de Fagner
domingo, 6 de janeiro de 2008
“...Então eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra nem a pessoa exata.E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.”
Caio Fernando Abreu
O dia de ontem. O ovo apunhalado.“
Caio Fernando Abreu
O dia de ontem. O ovo apunhalado.“
"(...) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (...)"
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
"Vai passar, tu sabes que vai passar.Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí,haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo,te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como: "estou contente outra vez"...
Caio Fernando Abreu, in "Metâmeros"
Caio Fernando Abreu, in "Metâmeros"
Arma química faz formiga adotar borboleta parasita
STEVE CONNOR
DO "INDEPENDENT"
Parece uma fábula de Esopo, mas a história da borboleta azul e da formiga vermelha é uma que você dificilmente contaria para seus filhos na hora de dormir. A lagarta da borboleta azul é "adotada" pela formiga vermelha, que leva a larva da borboleta para seu ninho e a trata como uma de suas próprias larvas, alimentando-a até que ela cresça o bastante para virar uma borboleta. A lagarta retribui a generosa hospitalidade comendo o máximo possível e devorando as crias da formiga como sobremesa.
Todas as cinco espécies de grandes borboletas azuis da Europa praticam essa forma de parasitismo, e agora os cientistas desvendaram o truque que lhes permite fazer isso -as lagartas se cobrem com uma substância que lhes dá o cheiro de formigas-bebês órfãs.
Os pesquisadores descobriram que as moléculas orgânicas secretadas na pele das borboletas azuis são muito parecidas com as da pele das larvas de formiga vermelha. E mais: quanto mais semelhante é esse coquetel químico, mais forte é a atração da formiga pela lagarta.
A descoberta deve ajudar os conservacionistas na tentativa de reintroduzir grandes borboletas azuis -ameaçadas- em seu habitat, ao fazê-los se assegurarem de que a química das lagartas e das formigas seja a mais parecida possível.
David Nash, da Universidade de Copenhague, liderou o estudo, publicado na edição de ontem da revista científica "Science". Ele disse que os resultados eram uma demonstração clara da "corrida armamentista" evolutiva que muitas vezes acontece entre os parasitas e seus hospedeiros.
"Os parasitas tentam o tempo todo se adaptar melhor aos seus hospedeiros, enquanto os hospedeiros sofrem pressões seletivas para evitar serem parasitados", afirmou Nash.
"Isso significa que pode haver uma corrida armamentista evolutiva em curso entre o parasita e seu hospedeiro. Houve alguns estudos anteriores com organismos microscópicos mostrando que isso pode ocorrer em laboratório, mas o que temos aqui, acho, é um dos primeiros casos em que nós temos evidências claras de que isso está acontecendo no campo."
"Eu sou uma formiga!"
Os cientistas estudaram dezenas de colônias de formigas vermelhas em uma ilha na costa da Dinamarca e, em cada ninho examinado, contaram o número de lagartas da grande borboleta azul (Maculinea alcon) que encontraram.
Essas borboletas põem seus ovos numa planta chamada genciana-dos-pântanos e suas lagartas crescem normalmente, alimentando-se de folhas. Mas, em uma certa fase do crescimento, as lagartas descem ao chão tecendo fios de seda.
"Elas deixam a planta da qual se alimentam e esperam no chão até serem encontradas pelas formigas", disse Nash.
Geralmente, na natureza, formigas comem lagartas. No caso das borboletas azuis, no entanto, as formigas que passam apanham gentilmente as larvas e, amorosamente, carregam-nas para o ninho -a questão é: por quê?
"As borboletas entram no ninho da formiga porque imitam os hidrocarbonetos de superfície, que as formigas têm em sua cria", afirmou o cientista. "Elas produzem esse sinal que diz: "Eu sou uma formiguinha". Nós conseguimos mostrar que, quanto mais próxima é a imitação, mais rápido elas são apanhadas pelas formigas."
Uma vez no ninho, diz Nash, "elas comem algumas larvas e também são alimentadas pelas formigas operárias, e têm preferência sobre as próprias larvas de formiga".
Duas espécies de formiga vermelha do gênero Myrmica são rotineiramente parasitadas pelas M. alcon. Mas os cientistas descobriram que uma delas é mais violentamente explorada que a outra.
A diferença na taxa de parasitismo ajuda as borboletas azuis a sobreviver, porque se ela dependesse de apenas uma espécie, haveria risco de sobreexplorar sua hospedeira. A segunda espécie-hospedeira serve como uma reserva em tempos de escassez de formigas, afirmou Nash.
DO "INDEPENDENT"
Parece uma fábula de Esopo, mas a história da borboleta azul e da formiga vermelha é uma que você dificilmente contaria para seus filhos na hora de dormir. A lagarta da borboleta azul é "adotada" pela formiga vermelha, que leva a larva da borboleta para seu ninho e a trata como uma de suas próprias larvas, alimentando-a até que ela cresça o bastante para virar uma borboleta. A lagarta retribui a generosa hospitalidade comendo o máximo possível e devorando as crias da formiga como sobremesa.
Todas as cinco espécies de grandes borboletas azuis da Europa praticam essa forma de parasitismo, e agora os cientistas desvendaram o truque que lhes permite fazer isso -as lagartas se cobrem com uma substância que lhes dá o cheiro de formigas-bebês órfãs.
Os pesquisadores descobriram que as moléculas orgânicas secretadas na pele das borboletas azuis são muito parecidas com as da pele das larvas de formiga vermelha. E mais: quanto mais semelhante é esse coquetel químico, mais forte é a atração da formiga pela lagarta.
A descoberta deve ajudar os conservacionistas na tentativa de reintroduzir grandes borboletas azuis -ameaçadas- em seu habitat, ao fazê-los se assegurarem de que a química das lagartas e das formigas seja a mais parecida possível.
David Nash, da Universidade de Copenhague, liderou o estudo, publicado na edição de ontem da revista científica "Science". Ele disse que os resultados eram uma demonstração clara da "corrida armamentista" evolutiva que muitas vezes acontece entre os parasitas e seus hospedeiros.
"Os parasitas tentam o tempo todo se adaptar melhor aos seus hospedeiros, enquanto os hospedeiros sofrem pressões seletivas para evitar serem parasitados", afirmou Nash.
"Isso significa que pode haver uma corrida armamentista evolutiva em curso entre o parasita e seu hospedeiro. Houve alguns estudos anteriores com organismos microscópicos mostrando que isso pode ocorrer em laboratório, mas o que temos aqui, acho, é um dos primeiros casos em que nós temos evidências claras de que isso está acontecendo no campo."
"Eu sou uma formiga!"
Os cientistas estudaram dezenas de colônias de formigas vermelhas em uma ilha na costa da Dinamarca e, em cada ninho examinado, contaram o número de lagartas da grande borboleta azul (Maculinea alcon) que encontraram.
Essas borboletas põem seus ovos numa planta chamada genciana-dos-pântanos e suas lagartas crescem normalmente, alimentando-se de folhas. Mas, em uma certa fase do crescimento, as lagartas descem ao chão tecendo fios de seda.
"Elas deixam a planta da qual se alimentam e esperam no chão até serem encontradas pelas formigas", disse Nash.
Geralmente, na natureza, formigas comem lagartas. No caso das borboletas azuis, no entanto, as formigas que passam apanham gentilmente as larvas e, amorosamente, carregam-nas para o ninho -a questão é: por quê?
"As borboletas entram no ninho da formiga porque imitam os hidrocarbonetos de superfície, que as formigas têm em sua cria", afirmou o cientista. "Elas produzem esse sinal que diz: "Eu sou uma formiguinha". Nós conseguimos mostrar que, quanto mais próxima é a imitação, mais rápido elas são apanhadas pelas formigas."
Uma vez no ninho, diz Nash, "elas comem algumas larvas e também são alimentadas pelas formigas operárias, e têm preferência sobre as próprias larvas de formiga".
Duas espécies de formiga vermelha do gênero Myrmica são rotineiramente parasitadas pelas M. alcon. Mas os cientistas descobriram que uma delas é mais violentamente explorada que a outra.
A diferença na taxa de parasitismo ajuda as borboletas azuis a sobreviver, porque se ela dependesse de apenas uma espécie, haveria risco de sobreexplorar sua hospedeira. A segunda espécie-hospedeira serve como uma reserva em tempos de escassez de formigas, afirmou Nash.
Os Votos de Sérgio Jockymann (a verdadeira versão)
“Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.
E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconseqüentes sejam corajosos e fiéis.
E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interprele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente seguro.
Desejo depois que você seja útil, não insubstituívelmente útil mas razoavelmente útil.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente.
E que essa tolerância nem se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.
Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro não insista em rejuvenescer,
e que sendo velho não se dedique a desesperar.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.
Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana,
mas um dia.
Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.
E que estão estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.
E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.
Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro erguer triunfante seu canto matinal.
Porque assim você se sentirá bom por nada.
Desejo também que você plante uma semente por mais ridículo que seja e acompanhe seu crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.
Só para que fique claro quem é o dono de quem.
Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.
Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impor*.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você. Mas que se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.
Desejo por fim que,
sendo mulher, você tenha um bom homem
e que sendo homem tenha uma boa mulher.
E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até o próximo ano acabar.
E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.
E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar”
Fonte: Folha da Tarde - Porto Alegre - 30 de Dezembro de 1978
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
"Deve ser por esse motivo que compro tantos livros / filmes / cd's. Porque posso tê-los. Nunca vão embora. Não existe em mim a sensação viva de ter que deixar partir. Não. Existe a certeza. De ter. E na vida real, essa de agora, é preciso deixar que não só as coisas, mas também e principalmente as pessoas, partam. Sigam suas vidas independente dos laços e afetos. Independente do amor. Deixar alguém subir balão acima rasgando o céu, é um exercício que dói muito. Exige disponibilidade de ambas as partes. Todas as partes.
Estou sensível e estar nesse estado ou estágio me deixa natural e obviamente vulnerável. Nunca fui tão eu mesmo. Nunca me senti tão EU*. Erupção de cuidados / carinhos / amores e não me lembro de tão fina dor. Deixar partir exige e dói. Não deixa feridas abertas. É mais intenso do que se supõe porque parte de uma percepção. E você sabe que perceber é no estalo. Às vezes sutil. Outras como um tapa, solavanco, raio de luz. Acúmulo de fios invisíveis que precisam ser cortados - porque deixar partir é uma necessidade. Saudável necessidade de um provável vício. Não tem relação direta com a posse, já que livros / cd's / filmes são possíveis na estante. Pessoas não, pessoas são vivenciadas. As minhas, pelo menos. E cada qual com seus mistérios e simplicidades. Fora da ordem, no meio da cidade, enfrentando a balança, que raramente está em sintonia. Sempre mais pesos que medidas. Ou o contrário.
O fato é que te deixar partir me pegou um tanto de surpresa e já é verão. Porque percebi no estalo do abrir de uma cortina, no vermelho de um vestido. Sangrando na platéia, percebi bruscamente que o fio invisível desfez o nó e te lançou foguete acima. De maneira surpreendente. Como nas histórias mais bonitas. Mais intensas. Estou quase em silêncio e compreender me ilumina e nos enaltece.
Compreende que te deixar partir é também, me deixar ir embora. Não é te dizer adeus, não compreenda por essa estrada. É apenas perceber que não posso ter você. Que não é possível ter alguém. Que essa idéia - ter - é uma forte e perigosa sensação porque ela parece real. Te deixo partir porque essa é a imagem que tenho de nós dois agora. Nossa história, nosso afeto, nosso amor, tudo isso são conquistas. Valores que estão na circulação, correndo pelo coração. Quem parte é o indivíduo. É ele quem segue.
Siga adiante. Também eu sigo. Lance mergulhos e vôos. Lanço eu os meus. Ame. Vou amar. E deixar as pessoas chegar. E partir. Como um fluxo de experiências. Meu amor por você vive me surpreendendo. Eu havia escrito isso, mas não tinha compreendido.
Te deixar partir não é deixar de te amar."
EGÍDIO LA PASTA JR.
Estou sensível e estar nesse estado ou estágio me deixa natural e obviamente vulnerável. Nunca fui tão eu mesmo. Nunca me senti tão EU*. Erupção de cuidados / carinhos / amores e não me lembro de tão fina dor. Deixar partir exige e dói. Não deixa feridas abertas. É mais intenso do que se supõe porque parte de uma percepção. E você sabe que perceber é no estalo. Às vezes sutil. Outras como um tapa, solavanco, raio de luz. Acúmulo de fios invisíveis que precisam ser cortados - porque deixar partir é uma necessidade. Saudável necessidade de um provável vício. Não tem relação direta com a posse, já que livros / cd's / filmes são possíveis na estante. Pessoas não, pessoas são vivenciadas. As minhas, pelo menos. E cada qual com seus mistérios e simplicidades. Fora da ordem, no meio da cidade, enfrentando a balança, que raramente está em sintonia. Sempre mais pesos que medidas. Ou o contrário.
O fato é que te deixar partir me pegou um tanto de surpresa e já é verão. Porque percebi no estalo do abrir de uma cortina, no vermelho de um vestido. Sangrando na platéia, percebi bruscamente que o fio invisível desfez o nó e te lançou foguete acima. De maneira surpreendente. Como nas histórias mais bonitas. Mais intensas. Estou quase em silêncio e compreender me ilumina e nos enaltece.
Compreende que te deixar partir é também, me deixar ir embora. Não é te dizer adeus, não compreenda por essa estrada. É apenas perceber que não posso ter você. Que não é possível ter alguém. Que essa idéia - ter - é uma forte e perigosa sensação porque ela parece real. Te deixo partir porque essa é a imagem que tenho de nós dois agora. Nossa história, nosso afeto, nosso amor, tudo isso são conquistas. Valores que estão na circulação, correndo pelo coração. Quem parte é o indivíduo. É ele quem segue.
Siga adiante. Também eu sigo. Lance mergulhos e vôos. Lanço eu os meus. Ame. Vou amar. E deixar as pessoas chegar. E partir. Como um fluxo de experiências. Meu amor por você vive me surpreendendo. Eu havia escrito isso, mas não tinha compreendido.
Te deixar partir não é deixar de te amar."
EGÍDIO LA PASTA JR.
"Ouse, ouse... ouse tudo!!Não tenha necessidade de nada!Não tente adequar sua vida a modelos,nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la!Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer."
“Não posso ser fiel aos outros, só a mim mesma."
"Não te enganes.A vida vai tratar-te mal.Portanto se quiseres viver tua vida, vai, e toma-a".
"Não ter amado é não ter vivido."
" A vida humana -
na verdade, toda a vida é poesia.
Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia,
fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade, ela nos vive"
Lou Andreas Salomé.
“Não posso ser fiel aos outros, só a mim mesma."
"Não te enganes.A vida vai tratar-te mal.Portanto se quiseres viver tua vida, vai, e toma-a".
"Não ter amado é não ter vivido."
" A vida humana -
na verdade, toda a vida é poesia.
Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia,
fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade, ela nos vive"
Lou Andreas Salomé.
"Voei demasiadamente longe pelo futuro e quando olhei ao meu redor, reparei que o tempo era o meu único contemporâneo"
"O verdadeiro homem quer duas coisas: o perigo e o divertimento. Por isso quer a mulher, que é o brinquedo mais perigoso"
"Eu só poderia acreditar num deus que soubesse dançar"
"Há pessoas a quem não podes dar as mãos e tão somente as patas e espero que tuas patas tenham garras"
"Frequentas as mulheres??Não esqueças o chicote!"
Nietzsche
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.
E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar.
Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
Clarice Lispector
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.
E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar.
Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
Clarice Lispector
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