domingo, 30 de março de 2008
Clarice Lispector
"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma".
Clarice Lispector, 1947 Berna - Suiça
quinta-feira, 27 de março de 2008
João Guimarães Rosa
"Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá excesso de adultos, todos eles, os mais queridos, ao modo de policiais do invasor, em terra ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom, de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas."
João Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa
"A beleza aqui é como se a gente a bebesse, em copo, taça, longos, preciosos goles servida por Deus. É de pensar que também há um direito à beleza, que dar beleza a quem tem fome de beleza é também um dever cristão."
Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa
"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.
Grande Sertão:Veredas
Grande Sertão:Veredas
João Guimarães Rosa
O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender - e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar a feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto:
- Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... - que era como se Diadorim estivesse dizendo.
João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas
- Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... - que era como se Diadorim estivesse dizendo.
João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas
João Guimarães Rosa
"Mãe, que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d'água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. 'Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade?'
João Guimarães Rosa
Campo Geral
João Guimarães Rosa
Campo Geral
quarta-feira, 26 de março de 2008
"[...] já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como 'sempre' ou 'nunca'. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. [...] Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. [...] Já não é tempo de desesperos"
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
mais Caio...
"[...] já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como 'sempre' ou 'nunca'. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. [...] Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como 'não resistirei' por outras mais mansas, como 'sei que vai passar'. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. [...] Já não é tempo de desesperos"
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 19 de março de 2008
...
algo desafia em
mim a ardência do seu
hálito do seu
cheiro
minha pele revive seu
abraço sua boca
mordida
diante de mim o dia
se espalha
desmedido
inapreensível
ruas enormes estradas
intransponíveis mares
traiçoeiros
tempestades
meus olhos sonham seu
sorriso
silencioso
algo desafia em mim a
vontade
apaziguada de
chorar
meu corpo sabe o tempo
inteiro só
de você
Adair Carvalhais Júnior
mim a ardência do seu
hálito do seu
cheiro
minha pele revive seu
abraço sua boca
mordida
diante de mim o dia
se espalha
desmedido
inapreensível
ruas enormes estradas
intransponíveis mares
traiçoeiros
tempestades
meus olhos sonham seu
sorriso
silencioso
algo desafia em mim a
vontade
apaziguada de
chorar
meu corpo sabe o tempo
inteiro só
de você
Adair Carvalhais Júnior
sábado, 15 de março de 2008
Comemoração da Semana Santa
A semana santa tem início no "Domingo de Ramos na Paixão do Senhor", que une
num todo o triunfo real se Cristo e o anúncio da Paixão. Na celebração e na
catequese deste dia, deve salientar-se o duplo aspecto do mistério pascal.
A comemoração da entrada do Senhor faz-se, desde a antiguidade, pela
procissão solene, com a qual os cristãos celebram este acontecimento,
imitando as aclamações e os gestos das crianças hebraicas, que foram ao
encontro do Senhor com o canto do "Hossana".
Os fiéis participam nesta procissão levando ramos de oliveira e de outras
árvores. A bênção dos ramos é feita para os levar na procissão.
Conservados em casa, os ramos recordam aos fiéis a vitória de Cristo celebrada
com a mesma procissão.
Ana ( Orkut )
num todo o triunfo real se Cristo e o anúncio da Paixão. Na celebração e na
catequese deste dia, deve salientar-se o duplo aspecto do mistério pascal.
A comemoração da entrada do Senhor faz-se, desde a antiguidade, pela
procissão solene, com a qual os cristãos celebram este acontecimento,
imitando as aclamações e os gestos das crianças hebraicas, que foram ao
encontro do Senhor com o canto do "Hossana".
Os fiéis participam nesta procissão levando ramos de oliveira e de outras
árvores. A bênção dos ramos é feita para os levar na procissão.
Conservados em casa, os ramos recordam aos fiéis a vitória de Cristo celebrada
com a mesma procissão.
Ana ( Orkut )
Humildade
Humildade
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”
Cora Coralina
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”
Cora Coralina
Aprendi a viver
Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Cora Coralina
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Cora Coralina
Acrobata da Dor
Acrobata da Dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...
Cruz e Sousa
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...
Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...
Cruz e Sousa
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
sexta-feira, 14 de março de 2008
A executiva no céu
A Executiva no Céu - Max Gehringer (Revista Exame)
>
> Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no
> peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou.
>
> Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal. Ainda
> meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo
> cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que
> estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
>
> - Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque
> tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá
> por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me
> parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
>
> - No céu.
>
> - No céu?...
>
> - É.
>
> - Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e coisas do
> gênero?
>
> - Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
>
> Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo,
> ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um
> pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.
>
> Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das
> infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era
> inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o
> bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de
> presidente do conselho de administração da empresa.
>
> E foi aí que o interlocutor sugeriu:
>
> - Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
>
> - É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
>
> - Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
>
> - Assim? (...)
>
> - Pois não?
>
> A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente,
> segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
> Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para
> situações inesperadas e reagiu rapidinho:
>
> - Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva
> bem-sucedida e...
>
> - Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
>
> - Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
>
> - Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.
>
> Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima
> autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em
> modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante
> currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma
> posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
>
> - Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma
> proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e
> andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes
> oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
>
> - É mesmo?
>
> - Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não
> vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e
> quem faz o quê?
>
> - Ah, não sabemos.
>
> - Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
>
> - Hã?
>
> - Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera
> desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas
> nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples
> programa de targets individuais e avaliação de performance.
>
> - Que interessante. ..
>
> - Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem
> sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar
> estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option,
> com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu
> da América Latina".
>
> - Fantástico!
>
> - É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um
> organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de
> perfis psicológicos não consigam resolver.
>
> - !!!...???... !!!...??? ...!!!
>
> - Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a
> definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas
> factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do
> investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
>
> - Sobre todas as coisas.
>
> - Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo,
> encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento,
> definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos
> alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por
> exemplo, me parece extremamente atrativo.
>
> - Incrível!
>
> - É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um
> board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é
> claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits
> e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho
> certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos
> pela frente vai resultar em um Turnaround radical.
>
> - Impressionante!
>
> - Isso significa que podemos partir para a implementação?
>
> - Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar
> com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente,
> como funciona o Inferno...
>
> Autor: Max Gehringer (Revista Exame)
>
> Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no
> peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou.
>
> Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal. Ainda
> meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo
> cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que
> estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
>
> - Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque
> tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá
> por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me
> parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
>
> - No céu.
>
> - No céu?...
>
> - É.
>
> - Tipo assim... o céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e coisas do
> gênero?
>
> - Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.
>
> Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo sorrindo,
> ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida custou um
> pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.
>
> Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das
> infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era
> inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o
> bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de
> presidente do conselho de administração da empresa.
>
> E foi aí que o interlocutor sugeriu:
>
> - Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
>
> - É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
>
> - Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
>
> - Assim? (...)
>
> - Pois não?
>
> A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente, imponente,
> segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
> Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para
> situações inesperadas e reagiu rapidinho:
>
> - Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva
> bem-sucedida e...
>
> - Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
>
> - Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva"?
>
> - Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.
>
> Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima
> autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em
> modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante
> currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma
> posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
>
> - Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma
> proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e
> andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes
> oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
>
> - É mesmo?
>
> - Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo, não
> vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e
> quem faz o quê?
>
> - Ah, não sabemos.
>
> - Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
>
> - Hã?
>
> - Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera
> desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas
> nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples
> programa de targets individuais e avaliação de performance.
>
> - Que interessante. ..
>
> - Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem
> sólidos e o pessoal começar a reclamar da pressão e a ficar
> estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option,
> com uma campanha motivacional impactante, tipo: "O melhor céu
> da América Latina".
>
> - Fantástico!
>
> - É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um
> organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de
> perfis psicológicos não consigam resolver.
>
> - !!!...???... !!!...??? ...!!!
>
> - Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a
> definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas
> factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do
> investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?
>
> - Sobre todas as coisas.
>
> - Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo,
> encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento,
> definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos
> alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por
> exemplo, me parece extremamente atrativo.
>
> - Incrível!
>
> - É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um
> board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é
> claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits
> e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho
> certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos
> pela frente vai resultar em um Turnaround radical.
>
> - Impressionante!
>
> - Isso significa que podemos partir para a implementação?
>
> - Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar
> com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever, exatamente,
> como funciona o Inferno...
>
> Autor: Max Gehringer (Revista Exame)
quinta-feira, 13 de março de 2008
..."E vinha depois também, insinuada aos poucos no meio da manhã, uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campainha, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela como uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa Campainha e telefone mudos, a manhã a transformar-se em tarde, emergia venenosa a sufocação, vontade de fugir, de não ser quem era nem ter vivido nenhuma das coisas que vivera. Todo um passado, essa coisa que chamam de passado, desembocava ali naquele momento, em pleno centro das manhãs esbranquiçadas de silêncio."
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu
sábado, 8 de março de 2008
"você pode não acreditar nisto
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.
eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.
eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.
você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.
oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.
mas eles
estão lá ...
e eu estou aqui."
Charles Bukowski
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.
eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.
eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.
você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.
oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.
mas eles
estão lá ...
e eu estou aqui."
Charles Bukowski
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