quinta-feira, 31 de julho de 2008

Guimarães Rosa


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."


João Guimarães Rosa

sábado, 19 de julho de 2008

Maiakovsky - o poeta operário


Livros

"Não empunharei bandeiras nem brasões,
não carregarei armas, não construirei prisões,
não aceitarei ordens, nem as darei,
levarei comigo meus livros,
meus amigos fiéis,
os únicos que mesmo em silêncio
me entendem."

Vladimir Maiakovsky

Maiakovsky - o poeta operário


Instintos

Dobro esquinas como quem respira.
Passo a passo, deixo pra trás as mazelas,
os desmandos,
a insana realidade do cotidiano.
De dia o asfalto tenta me fazer desistir,
a noite, seguem-me os postes e os muros.
Meio homem, meio cão, sigo apenas os instintos,
eles sim, sempre me conduzirão.

Vladimir Maiakovsky

Maiakovsky - o poeta operário


Renascer

Vendo caro cada um dos meus sonho
pois foi às custas de muitas lágrimas
que semeei-os em meu ser.
Cortei-me, despedacei-me,
morri por dias e noites
na solidão interminável
do pensamento.
Mesmo que um dia
alguém tome os meus sonhos
e os queime junto com as decepções,
ainda assim, restará em mim,
as cinzas do que acredito.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


Iguais

Quais, dentre vocês, sentem-se
suficientemente à vontade
para detrminar
o que aos outros
basta?
Bastam as dores?
Bastam os males?
Bastam o simples, o fácil?
Se à todos não formos justos
jamais seremos iguais.

Vladimir Maikovsky

Maiakosky - o poeta operário


Lembranças

Éramos poucos mas éramos tudo o que precisávamos.
Tínhamos coragem, tínhamos força,
tínhamos a certeza de estarmos fazendo a coisa certa.
Porém, o tempo foi passando
e um a um fomos abandonando nossas convicções,
nossas crenças, nossos ideais.
Hoje, somos lembranças do que fizemos
e arrependimento pelo que deixamos de fazer.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


"Despertar.."

Imerso nos sentidos,
que me vêm à luz
apenas no escuro,
desligo-me de tudo.
Sobrevôo a mim mesmo,
rodeio-me,
observo-me inerte,
inconsciente,
a esperar.
Espero despertar,
mesmo que seja às pressas,
mesmo que seja à força.
Espero reencontrar-me,
seja à luz de mais um dia
ou na escuridão do pensamento.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


Imune..

Deparo-me com outro dia,
mais um daqueles todos que me restam.
Sobrevivi à ontem refugiando-me no álcool
e no pensamento.
Só ele me liberta.
Mesmo quando ocupam-me as mãos,
com a produção de algo que nunca vou possuir,
meu pensamento voa.
Mesmo na masmorra em que me acomodam,
mesmo de boca cheia com as sobras que me oferecem,
mesmo sendo alvo, vítima, de todas as tentativas
sórdidas de me oferecerem o que eu não quero e nem preciso,
mesmo assim,
vago pelo ar,
imune.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


Fuga..

Escondo-me à sombra,
à margem da minha vida.
Escuto apenas o som
da minha própria voz.
Sozinho, exausto,
desisto de acreditar.
Fecho os olhos, calo-me,
faço de conta que não existo.
Enfim,
tento sem conseguir
fugir de mim.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


Reflexões..

Enquanto espero a minha hora
defronto-me com os monstros
que habitavam em mim.
Fui medroso, covarde, medíocre..
Fiz tudo o que sempre repudiei..
Calei-me diante da vida,
anestesiei-me perante os sonhos..
Com o solvente do cotidiano
fui descolorindo,
lentamente,
meus valores, minhas crenças..
Com a cal dos anos que se passaram
fui tornando infértil
meus dias, meses, anos..
Restam-me as memórias
e as angústias
de não ter feito
o que desejei fazer.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


Mensagem no muro..

Escrevi meu nome
com meu próprio sangue
nos muros que cercam a cidade.
Escrevi em letras grandes,
fortes,
como sempre desejei ser.
Escrevi com força,
rápido,
sem deixar tempo para me arrepender.
Escrevi do alto ao chão
para que nunca esquecesse
que mesmo sangrando
nunca deixaria de ter
um princípio,
um meio
e um fim.

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


"Meu fim"

Pus-me aos cacos
quando inutilmente
tentei compreender
o que havia me tornado.
Meio homem, meio fera,
um pouco de tudo,
muito de nada, de ninguém..
Nada do que restou em mim
diz algo sobre o que eu fui.
Nada do que restou aqui
refere-se ao que eu quis.
Nem vida, nem sonho..
Nada restou..
Enfim..
..o fim..

Vladimir Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário


"Comigo, a anatomia ficou louca: sou todo coração".

Maiakovsky

Maiakosky - o poeta operário

O trabalho do poeta

................................
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.

Vladimir Maiakovsky

Maiakovsky - O poeta operário

A FLAUTA VÉRTEBRA

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Maiakovsky


(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

Maiakovsky - O poeta operário


Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem


tradução: Augusto de Campos


Maiakovsky - O poeta operário


Grita-se ao poeta:
"Queria te ver numa fábrica!
O que? Versos? Pura bobagem".
Talvez ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os oradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!

Maiakovsky

Maiakovsky - algumas frases famosas


  • "Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz."
  • "O tempo é roído por vermes cotidianos. As vestes poeirentas de nossos dias, cabe a ti, juventude, sacudi-las."
  • "Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor."
  • "É prefirível morrer de Vodka que morrer de tédio."
  • "A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção."
  • "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária."
  • "Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas."
  • "Traduzir poemas é tarefa difícil, especialmente os meus. (...)Uma outra razão da dificuldade da tradução de meus versos vem de que introduzo nos versos a linguagem quotidiana, falada... Tais versos só são compreensíveis e só têm graça se se sente o sistema geral da língua, e são quase intraduzíveis, como jogos de palavras."

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca

(1894-1930)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Procrastinação



Procrastinação é o diferimento ou adiamento de uma ação. Para a pessoa que está procrastinando, isso resulta em stress, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com suas responsabilidades e compromissos. Enquanto é normal que as pessoas procrastinem até um certo ponto, isso se torna um problema quando impede o funcionamento normal das ações. A procrastinação crônica pode ser um sinal de alguma desordem psicológica ou fisiológica.

A palavra em si vem do latim procrastinatus: pro- (à frente) e crastinus (de amanhã). A primeira aparição conhecida do termo foi no livro Chronicle (The union of the two noble and illustre famelies of Lancestre and Yorke) de Edward Hall, publicado primeiramente antes de 1548.

Logo, um procrastinador é um indivíduo que evita tarefas ou que está evitando uma tarefa em particular.

Causas da procrastinação

Psicológica

As causas psicológicas da procrastinação variam muito, mas geralmente tendem a fatores como ansiedade, baixa auto-estima e uma mentalidade auto-destrutiva. Pensa-se que procrastinadores têm um nível de consciência maior que o normal, mais baseado em "sonhos e desejos" de perfeição ou realização, em vez de apreciação realista de suas obrigações e potenciais.[1]

O autor David Allen traz à tona duas grandes causas psicológicas de procrastinação no trabalho e no dia-a-dia que estão relacionadas à ansiedade, não preguiça. A primeira categoria engloba coisas muito pequenas para se preocupar, tarefas que são uma interrupção irritante no fluxo das coisas, e que tem soluções de baixo impacto; um exemplo seria, organizar uma sala bagunçada. A segunda categoria contém coisas muito grandes para serem controladas, tarefas que uma pessoa pode temer, ou cujas implicações podem ter um impacto grande na vida da pessoa; um exemplo seria, o filho adulto de um idoso doente decidir se este deve continuar vivendo ou morrer (como em casos em que a eutanásia é usada).

Vale apontar que uma pessoa pode inconscientemente superestimar ou subestimar o tamanho de uma tarefa, se a procrastinação se tornar um hábito em sua vida.

Fisiológica

Pesquisas sobre as raízes fisiológicas da procrastinação, em sua grande parte, focam no envolvimento do córtex pré-frontal. Essa área do cerébro é responsável por funções de execução cerebral como planejamento, controle de impulsos, atenção, e age como um filtro diminuindo estímulos que causam distração, que vêm de outras regiões do cérebro. Lesões ou baixa utilização dessa área podem reduzir a capacidade de uma pessoa de filtrar estímulos que causam distração, resultando em má organização, perda de atenção e aumento de procrastinação. Isso é similar ao papel do lobo pré-frontal no Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), onde é comum a sua subutilização.

Procrastinação e a saúde mental

A procrastinação pode ser uma desordem persistente e debilitante em algumas pessoas, causando disfunções e imperícia psicológicas significantes. Estas pessoas podem estar, de fato, sofrendo de outros problemas mentais como depressão ou Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Enquanto que a procrastinação é uma condição comportamental, esses outros problemas de saúde mental podem ser tratados com medicamentos e/ou terapia. Medicamentos podem melhorar a capacidade de foco e atenção de uma pessoa (no caso de um TDAH) ou melhorar o humor e temperamento no geral (no caso da depressão). A terapia pode ser uma ferramenta importante para ajudar um indivíduo a ter novos comportamentos, superar seus medos e ansiedades, e alcançar uma melhor qualidade de vida. Portanto, é importante para as pessoas que lidam crônicamente com a procrastinação debilitante, consultarem um terapeuta ou um psiquiatra para ver se um maior problema de saúde mental pode estar presente.

Perfeccionismo

Tradicionalmente, a procrastinação tem sido associada com o perfeccionismo, uma tendência de avaliar negativamente os resultados e a performance de alguém, medo intenso e ansiedade, mau humor recorrente e workaholismo. Slaney, em 1996, descobriu que perfeccionistas adaptivos eram menos prováveis a procrastinar que os não-perfeccionistas, enquanto que os perfeccionistas não-adaptivos (pessoas que vêem seu perfeccionismo como um problema) apresentavam altos níveis de procrastinação (e também ansiedade).

Procrastinação acadêmica

Enquanto que a procrastinação acadêmica não é um tipo especial de procrastinação, pensa-se que a procrastinação é particularmente prevalente em configurações ambientais acadêmicas, onde estudantes devem lidar com prazos para provas e trabalhos em um ambiente cheio de eventos e atividades que competem o tempo e atenção dos estudantes. Mais especificamente, um estudo de 1992 mostrou que "52% dos estudantes entrevistados indicaram ter uma necessidade, de moderada à alta, de ajuda em relação à procrastinação"

Alguns estudantes enfrentam a procrastinação devido à falta de gerenciamento de tempo ou técnicas de estudo, stress, ou porque se sentem sobrepujados com seus trabalhos. Estudantes também podem lidar com a procrastinação por razões médicas como o TDA/TDAH ou uma desordem de aprendizado como a dislexia.

A situação é pior em nível de graduação, onde as condições são perfeitas para procrastinação e trabalho mental intangível com prazos flexíveis e, muitas vezes, objetivos auto-definidos. Muitas universidades oferecem aulas, treinamento e tutoria em técnicas de estudo para estudantes que estão enfrentando a procrastinação ou uma desordem de aprendizado. Estudantes com TDA ou desordens de aprendizado, geralmente estão aptos a considerações especiais como, por exemplo, tempo maior para fazer uma prova.

Não é sabido o quão frequentemente um caso severo de procrastinação causado por uma disfunção mental pode passar desapercebido quando a pessoa está em um contexto acadêmico, pois ela pode ser categorizada meramente como "procrastinação acadêmica".

Síndrome do estudante

A síndrome do estudante refere-se ao fenômeno que muitos estudantes só vão começar a se dedicar inteiramente a uma tarefa logo antes do prazo final. O termo foi originado no livro Critical Chain de Eliyahu M. Goldratt.

Por exemplo, se um grupo de estudantes vai até um professor e pede por um adiamento do prazo final de entrega, eles provavelmente vão argumentar que seus projetos serão melhores se eles tiverem mais tempo para trabalhar neles; os alunos pedem isso com a intenção de distribuir o tempo de trabalho pelo tempo que sobra até o prazo de entrega. Porém, a maioria dos estudantes terão outras tarefas ou eventos que também demandam seu tempo. Logo, eles vão acabar se encontrando na mesma situação que começaram, desejando ter mais tempo livre, conforme a data limite se aproxima.

Tipos de procrastinadores

O tipo relaxado

Os procrastinadores do tipo relaxado vêem suas responsabilidades negativamente e fogem delas direcionando sua energia para outras tarefas. É comum, por exemplo, para uma criança procrastinadora do tipo relaxado, abandonar a sua lição de casa, mas não sua vida social. Esse tipo de procrastinação é uma forma de negação. O procrastinador evita situações que causariam desprazer, e, em vez delas, participa de situações mais prazerosas. Em termos Freudianos, esses procrastinadores se recusam a renunciar o princípio do prazer, em vez de sacrificarem-se no princípio da realidade. Eles podem aparentar não estarem preocupados com o trabalho e com prazos, mas isso é simplesmente uma forma de evasão.

O tipo tenso-nervoso

O procrastinador tipo tenso-nervoso normalmente sente-se dominado por pressão, irreal quando trata-se de tempo, incerto sobre seus objetivos e muitos outros sentimentos negativos. Sentindo que lhes falta a habilidade ou foco para completar seus trabalhos, eles dizem a si mesmos que precisam "desestressar" e relaxar, e que é melhor "ir com calma à tarde para começar de novo na manhã seguinte", por exemplo. O "relaxamento" do procrastinador desse tipo é geralmente temporário e inefetivo, e leva a até mais stress conforme o tempo vai se esgotando, prazos se aproximam e a pessoa se sente cada vez mais culpada e apreensiva. Esse comportamento vira um ciclo de fracasso e atraso, enquanto os planos e objetivos são deixados de lado e anotados "para amanhã" ou para a próxima semana repetidamente. Isto também traz um efeito debilitante em sua vida pessoal e suas relações. Como os procrastinadores desse tipo são incertos em relação à seus objetivos, eles muitas vezes se sentem desconfortáveis com pessoas confiantes e objetivas, o que pode causar depressão. Procrastinadores tensos-nervosos geralmente recolhem-se da vida social, evitando contato até mesmo com amigos próximos.

Como lidar com a Tendência à Procrastinação

Como Lidar com a Tendência à Procrastinação


Aqui entramos a área dos empecilhos pessoais à administração do tempo. Para combater a tendência à procrastinação ou protelação, é necessário entender suas causas. Elas são todas de natureza psicológica.

As Causas da Procastinação


A principal causa da procrastinação é a falta de vontade de fazer determinada coisa. Isto se dá, como vimos, quando e porque a tarefa a ser realizada é muito difícil, complexa, longa, ou desagradável. Em relação a esse tipo de tarefa, todos temos uma inclinação natural a seguir o conselho de Mark Twain: "Nunca deixe para amanhã o que você pode deixar para depois de amanhã" .

Recordêmo-nos de quando éramos crianças. Muitas crianças detestam espinafre e a maioria delas, quando obrigadas a comê-lo, deixam-no para o fim (na esperança, talvez, de que alguma coisa aconteça que as desobrigue da detestada tarefa). Algo semelhante acontece com executivos. A forma de lidar com essa causa é enfrentar o problema com coragem e determinação: comer o espinafre primeiro, e então dedicar-se àquilo que nos causa maior prazer. Assim sendo, quando confrontados com uma tarefa desagradável ou difícil, mas necessária, devemos procurar realizá-la imediatamente e, se possível, de uma só vez (remédio ruim se toma de um só gole). Caso contrário, ela se torna vítima de nossa tendência à procrastinação.

A experiência tem mostrado que as pessoas de maior sucesso são as que tratam o mais rápido possível das tarefas desagradáveis ou particularmente difíceis. Fazer o resto, depois, torna-se um prazer.

Outra causa da procrastinação é o perfeccionismo. Os perfeccionistas, porque desejam fazer tudo com a maior perfeição, freqüentemente têm dificuldade para começar tarefas que não dominam bem ou para as quais não existam critérios explícitos de desempenho. Sentem-se obrigados a se capacitar primeiro, adquirindo as habilidades necessárias, ou então a buscar critérios de desempenho. Como dificilmente estão contentes com o domínio que possuem de qualquer habilidade, e como os critérios de desempenho em determinadas áreas são difíceis de definir, nunca começam a realizar determinadas tarefas, porque não se consideram prontos, ou nunca as concluem, porque nunca estão satisfeitos com o produto. A melhor maneira de lidar com essa causa da procrastinação é reconhecer que num contexto gerencial não existem muitas tarefas que possam ser desempenhadas com perfeição, mesmo que existam critérios de desempenho bem definidos. Devemos também reconhecer que, a maior parte das vezes, o que fazemos poderia ser feito melhor, mas apenas com um maior investimento de tempo, que, talvez, não compense. Perfeccionistas precisam aprender a conviver com o fato de que freqüentemente é preciso fazer o que tem de ser feito, mesmo que em nível de qualidade aquém do desejado, porque a alternativa realista o mais das vezes não é um produto de melhor qualidade, mas, sim, nenhum produto.

Procure se compenetrar do fato de que nem todas as tarefas precisam ser feitas com o mesmo nível de qualidade, e, portanto, nem todas elas precisam receber quotas equivalentes de tempo. Um relatório interno, por exemplo, não precisa ser muito burilado. Se você se contentar com uma redução de 10% na qualidade do produto, e isso lhe poupar 40% do tempo que seria gasto no relatório, então o tempo poupado provavelmente pode ser melhor utilizado em outra tarefa. Por outro lado, se o relatório for dirigido à presidência da empresa, ou aos acionistas, ou ao público em geral, uma redução de 10% na qualidade e 40% no tempo de elaboração pode não ser aceitável. Considere tudo isso.

Uma terceira causa da procrastinação é a ilusão de que não fazemos a tarefa que estamos procrastinando por falta de tempo. Para manter a ilusão, procuramos nos manter ocupados - mas geralmente com trivialidades (coisas sem importância) ou com coisas que não têm muita urgência. Resolvemos, por exemplo, limpar nossa mesa, arrumar nosso arquivo ou armário, colocar em dia nossa contabilidade pessoal, etc. Assim, damos a nós mesmos a impressão de que estamos ocupadíssimos, para poder justificar a não realização da tarefa procrastinada, mascarando nossa procrastinação de falta de tempo.

A eliminação dessa causa envolve reconhecer que, por mais hábeis que sejamos em enganar-nos a nós mesmos, no fundo sabemos que o problema real não é falta de tempo. Essa tática, na verdade, nos causa stress, porque sabemos que estamos engajados em um teatro do qual somos atores e audiência, e do qual só poderemos sair perdendo.

Uma quarta causa de procrastinação pode ser detectada em jovens de talento que, aparentemente por acharem que sua competência é tão óbvia e visível, acreditam que nunca precisam demonstrá-la. Afirmam que poderiam ter realizado maravilhas, se apenas tivessem querido. O problema é que nunca querem, talvez por medo de fracassar e assim destruir a imagem de competência que têm procurado criar. Alimentam essa imagem com a alegação de que nunca fracassaram. O que não é dito é que nunca se engajaram em fazer nada.

Como Enfrentar a Procastinação


O enfrentamento dessa causa da procrastinação envolve, novamente, honestidade com nós mesmos. No fundo, conhecemos nossos receios mais profundos. A única forma de vencê-los é enfrentando-os. Na verdade, o temor do fracasso é, em geral, uma causa independente da procrastinação e da indecisão. Quem não tenta não falha - mas também não alcança sucesso.

Há, por fim, uma série de táticas que podem nos ajudar a derrotar a procrastinação.

A primeira delas é dividir um problema complexo e difícil em vários problemas menores, ou estágios, e atacar imediatamente os mais simples e fáceis. Mesmo a jornada mais longa começa sempre com o primeiro passo. A lembrança disso nos dará um certo sentido de realização, à medida que progredimos, que poder nos ajudar a enfrentar o restante do problema.

A segunda é nos dar um prêmio ou uma recompensa pela conclusão de cada parcela ou estágio da tarefa. Mas devemos manter a honestidade: a recompensa deve vir depois da conclusão, não antes ou em vez dela.

Na verdade, a honestidade com nós mesmos é o fator chave na luta contra a procrastinação. Não devemos tentar mascarar a realidade: isso sai freqüentemente caro, em termos objetivos ou psicológicos.

domingo, 13 de julho de 2008

Frida Kalho (1907-1954), Mexican Painter


Frida Kahlo (1907-1954), Mexican Painter.

From 1926 until her death, the Mexican painter Frida Kahlo created striking, often shocking, images that reflected her turbulent life. Kahlo was one of four daughters born to a Hungarian-Jewish father and a mother of Spanish and Mexican Indian descent, in the Mexico City suburb of Coyoacán.

She did not originally plan to become an artist. A polio survivor, at 15 Kahlo entered the premedical program at the National Preparatory School in Mexico City. However, this training ended three years later when Kahlo was gravely hurt in a bus accident. She spent over a year in bed, recovering from fractures of her back, collarbone, and ribs, as well as a shattered pelvis and shoulder and foot injuries. Despite more than 30 subsequent operations, Kahlo spent the rest of her life in constant pain, finally succumbing to related complications at age 47.

During her convalescence Kahlo had begun to paint with oils. Her pictures, mostly self-portraits and still lifes, were deliberately naive, filled with the bright colors and flattened forms of the Mexican folk art she loved. At 21, Kahlo fell in love with the Mexican muralist Diego Rivera, whose approach to art and politics suited her own. Although he was 20 years her senior, they were married in 1929; this stormy, passionate relationship survived infidelities, the pressures of Rivera's career, a divorce and remarriage, and Kahlo's poor health. The couple traveled to the United States and France, where Kahlo met luminaries from the worlds of art and politics; she had her first solo exhibition at the Julien Levy Gallery in New York City in 1938. Kahlo enjoyed considerable success during the 1940s, but her reputation soared posthumously, beginning in the 1980s with the publication of numerous books about her work by feminist art historians and others. In the last two decades an explosion of Kahlo-inspired films, plays, calendars, and jewelry has transformed the artist into a veritable cult figure.

Caio Fernando Abreu - mais Dispersos


"O homem que sai fora de seu meio está condenado ao
desajustamento.

Se retornar ao meio onde foi gerado e criado, não conseguirá jamais readaptar-se.
Se permanecer no meio onde está, sentir-se-á sempre cobrado pelos atos ou palavras que não supunha existirem.
E de qualquer forma, seu destino é a solidão.
Sua possibilidade de escapar à sensação de marginalidade e alheamento ( ou estranheza) ao que o cerca seria voltar-se para a contemplação, procurando no encontro com o divino o que o humano não lhe concedeu."


Caio F.

Caio Fernando Abreu - Dispersos

"Os moços não sabem que os velhos existem.
Os velhos sabem de tudo,
e têm pena."

Caio F.

Caio Fernando Abreu - comentários sobre ele

Caio F. em Cartas
Uma dica de leitura (e pequena homenagem)

por Betânia Alfonsin e Luís Gustavo Weiler, de Porto Alegre

8/11/2004

Em fins de 2002 foi lançado aqui em Porto Alegre, no Café do Cofre, o livro "Cartas", reunindo montes de cartas enviadas por Caio Fernando Abreu a amigonas e amigos do peito. A festa foi chique e concorrida, organizada por Luciano Alabarse, com a leitura de algumas por Eleonora Rizzo, Luis Augusto Fischer, Juarez Fonseca. As nuanceiras estavam lá pra cobrir o evento. Mas só foram descobrir o tesouro que tinham em mãos recentemente... Delícia de descoberta, porque a partir desse acervo dá para revirar as gavetas cheias de caramujos comilões, chicotinhos de vison, frangas torradas e rosas brancas, entre outras coisas bacanas que o Caio guardava para seus afetos. E daí a escancarar uma nova dimensão (nada de baixar santos, please!) em que nos vemos espelhados nas najações, mêdas - às vezes pânicas, surpresas, graças e poesias do guri, é um pulo!

"Cartas" é um projeto raro. "Um luuuxo" como diria o próprio Caio. Cuidadosamente organizado por Ítalo Moriconi, o livro é uma leitura saborosa. Aliás, nesses tempos de orkuts, chats, e-pombos, sites e outros espaços cibernéticos, é fascinante pensar que Caio Fernando Abreu possa estimular o antigo (e belo) hábito de se corresponder por escrito - como ele bem o fazia pilotando uma máquina de escrever. Sem dúvida, um gesto de generosidade. Um carinho de quem escreve para quem lê, uma forma de dizer "lembro de você, penso em você, saudade de você". E uma satisfação para quem tá acostumado a abrir a caixinha do correio só para pegar contas...

Intimidade e bichice
Assinava suas missivas como Caio F. - era o primo intelectual da "Christiane F. drogada e prostituída". Na verdade ele se dava várias alcunhas, dependendo do momento em que estava vivendo. E seus destinatários também viravam suas vítimas: nesse jogo, a super-amiga Jacqueline Cantore era Marileeeeeeeeeeeeeeene, Luiz Arthur Nunes virava Luizar e a dramaturga Maria Adelaide Amaral se transformava na Levíssima, por exemplo. Essa debochada forma de intimidade compartilhada é o que nos aproxima do universo de Caio F., deixando a agradável sensação de sermos nós, os leitores, os destinatários das cartas (ou pelo menos a vontade de sermos...) Numa espécie de voyeurismo literário, espiamos e tomamos parte da intimidade do escritor, passando a ser o confidente a quem ele conta suas peripécias pela vida.

E que intimidade... Caio se auto-denominava um devasso. Estava totalmente à vontade com suas preferências sexuais homoeróticas e queria mais era aproveitar a vida que tanto amava.
Tenho trepado muito: as culpas vão se diluindo. Ser feliz é uma obrigação.

A minha vida sexual tá parecendo uma versão latino-americana & gay do Mulheres do Bukowski, ando até pensando num texto chamado Os homens que eu tive. Mas de ontem pra cá me deu um enjôo total e só cometi um pequeno felácio.

Caio parecia adorar o exercício de escrever cartas para manter-se em contato com seus carinhos - e fazer novos - em um tempo em que não existia e-mail e no qual as cartas poderiam demorar dias, semanas até! Ou mesmo, horrores dos horrores, não chegarem, como volta e meia ele desconfiava.

Morando em diferentes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Paris) ao longo de sua trajetória, a biba não esquecia suas raízes e escrevia loucamente, caprichando no porto-alegrês, em um ritmo quase alucinante, fazendo parecer que ele se alimentava com esse hábito. Escrevia tanto para old friends quanto para se apresentar a pessoas que não conhecia (escritores, por exemplo) e expressar sua admiração. Além de familiares, ex-namos, amigos e amigas íntimas, alguns de seus correspondentes foram o próprio Luciano Alabarse, Marcos Breda, Luiz Arthur Nunes, Bruna Lombardi, Hilda Hilst, Adriana Calcanhoto, entre vários outros e outras. O Caio que surge das "Cartas" é um virginiano dedicadíssimo a seus amores, criando apelidos para cada um e demonstrando uma enorme disposição para o diálogo e a troca.

Porto Alegre, mais conhecida como Gay Port
Em plena década de 70, Caio Fernando Abreu declarava seu amor por Porto Alegre, e, alta sacação, passou a chamá-la de Gay Port. Olha que tri-legal essa tradução que, mesmo literal, é viadíssima! Tão cosmopolita, tinha em Porto Alegre o seu porto seguro. Afinal esta foi a cidade que o acolheu (vindo frangote de Santiago/RS para estudar na capital) e que ele escolheu pra viver no fim de sua vida de 47 anos, junto dos pais, "cuidando de rosas no jardim, fazendo canteiros com arruda, alecrim, manjericão".

Ando morto de saudade de Porto Alegre, acho que vou agora no fim do mês, ficar uns 10 dias. Vou de ônibus, bem pobrinho. Basta sentar nos degraus de casa, tomar um sol com Zaél e Nair, chimarrão com bergamota (mistura explosiva), uma noitada no Lola e/ou no Ocidente, uma voltinha na Redenção, um pôr-do-sol no Guaíba - e já me sinto tri-reenergizado. Amo demais o Sul.

E a relação da bicha com outras cidades era cheia de contradições, que ele traduzia flexionando o verbo "adorodeio". Chegado em Sampa, ou em qualquer outra, Caio apostava - confiante - que tudo ia dar pé. A curtição da solidão de espiar pela janela uma roseira era logo substituída pelo desejo de portoalegrense-cidadão-do-mundo, que o fazia catar os bares das Jaciiiras ou Ireeenes de bigode. Boliches que, segundo Caio, são os mesmos de Jacarta a Assunción, passando por NY. Então, dali à carta seguinte, já falava mal de Sampa, pessoas dormindo sob o Minhocão, a cidade cinza, sem plátanos e tal.
Tudo porque já estava encantado pelo Rio, pra onde ia de muda para dividir apê com amigos (no começo uns santos, depois, ai que dificuldade conviver em grupo...) ou para um hotel em Santa Tereza. Nesses inícios ficava entusiasmado, e falava da cidade como meio para realização de seus sonhos, que tudo ia dar certo, com certeza, tô sentindo.

Bem, finalmente estou aqui, e me sentindo muito bem, num lugar fantástico, meio tropical, meio colonial, meio bávaro. Meio muito. Estou ficando saudável, bonito & corado. Uma gracinha. Só me falta agora arrumar um Grande Amor. Assim mesmo, com letras maiúsculas. Virá logo: a cidade é mágica, sensual, afetiva, tesuda.
Até que a coisa desandava e ele se desiludia, claro, mas o fato é que a bicha se divertia muitíssimo, mundo afora.

Tô no sul da Noruega, depois de rodar bolsinha por Portugal, Espanha e Suécia. Te escrevo na sala de uma casa no meio de um jardim. Ouvindo Callas e fumando horrores enquanto um escravinho norueguês loiríssimo corta a grama lá fora. Toda Laika tem seu dia de Stephanie de Mônaco, baby.

Laika, mas com uma alminha très chic...
Uma das aflições desse escritor era o $$$ (ele usava a tecla três vezes, quando a cosa tava preta). Ganhou montes de prêmios, foi traduzido para 200 idiomas diferentes, porém grana que é bom, necas. E ele reclamava, confessava freqüentemente que a vida estava apertada. Pedia - cheio de dedos - para a mãe mandar uns pilas. E torcia para um dia ficar rico. "Ontem só tomei um café!" contou ele, quando certa feita passava por uma capital européia qualquer... Lavou pratos, fez traduções (Arghhh!!!), trabalhou na Editora Abril, no Jornal ZH, se virou como pôde. Mas sempre viveu muito modestamente.
Rico não chegou a ser, mas era finésimo quando homenageado por pessoas que ele admirava, amigos como Cazuza e Marcelo Rubens Paiva.

Fui ao Rio para o enterro de Cazuza. Eu o adorava - uma vez, fiquei tão exibido, ele me dedicou uma música num show do Aeroanta, era Só as mães são felizes, claro. A gente se agarrava loucamente e rolava de rir toda vez que se encontrava.

Todas as horas do fim
Depois de adiar "o teste" por 10 anos, Caio descobriu-se HIV positivo em 1994. Rodeado pela doçura dos pais, irmãos e amigos, com uma equipe antenada e humana de médicos homeopatas, acupunturistas e oncologistas, lutava contra infecções oportunistas enquanto "barganhava com deus tempo para escrever pelo menos mais seis livros..."

Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo dizer, um dia de salto sete, outro de sandália havaiana. É preciso ter muita paciência com esse vírus do cão. E fé em Deus. E falanges de anjos-da-guarda fazendo hora extra. E principalmente amigos como você e muitos outros, graças a Deus, que são melhores que AZT.

Levado pela Aids em 1996, depois de deixar uma obra que revolucionou a cena literária brasileira, Caio nos deixa uma herança bárbara neste livro... Em cada carta nos encontramos com fragmentos de seu exercício reflexivo sobre a subjetividade, o modo de vida, a bichice, a amizade e o amor. O sentimento de identidade não poderia ser maior.
Um livro para rir, um livro para chorar, um livro para celebrar.



Egídio La Pasta Jr

“Se a gente vai ficar maluco por amor
É bem melhor que seja a dois
Pois sendo só é bem pior”
(Papo de Psicólogo/ Jair Oliveira)

Se você me perguntasse do cenário, eu certamente ia enrolar algum canto do Rio de Janeiro e possivelmente ilustraria porque as cores e a geografia dessas ruas, me permitiriam qualquer oratória inspirada. Mas talvez, se houvesse um momento, um pequeno momento de lucidez, eu hesitaria tentar descrever as curvas ou os tons ou ainda a atmosfera e focaria no que, para mim, naquele momento, me fez perder toda a noção de onde, como e quando: o teu olhar. Veja bem, não somente os teus olhos, mas o olhar. Que era manso e me interessava. Que parecia querer dizer alguma história que ainda não sei. Me contar algum fato, alguma dica apenas de quem você poderia ser. O teu olhar preto me interessava e no teu conjunto de formas e detalhes que me causavam uma serena curiosidade, era ele que me fazia perder o compasso.

Depois de três dias te encontrando sem te dizer qualquer palavra, apenas correspondendo o que poderia não ser nada além de um olhar perdido, eu saí mais tarde do trabalho e não peguei o metrô no mesmo horário de sempre. Veja bem, eu não sei absolutamente nada sobre você. Além dos teus olhos escuros, tua pele clara e tua mochila azul, não existe fato algum que me entregue a certeza ou a esperança de que poderíamos, quem sabe, encontrarmo-nos outra noite, saindo eu do trabalho, saindo você de qualquer lugar que te ocupa algumas horas de dedicação e que te faz trilhar o mesmo caminho que eu, embora o destino seja diferente. E por qualquer ironia e também por qualquer sensação de alívio, os destinos precisam ser diferentes. Para que possam se cruzar.

Depois de três dias, eu não te encontrei. Voltei para casa sem te observar me observando, pensando que em alguns casos específicos, a gente precisa agir. Sair da posição inerte de observador e arriscar qualquer intenção, qualquer movimento de atenção, qualquer aleluia que nos salve. Voltei para casa, sem você, pensando que a cidade é grande e que por esse mesmo motivo, talvez eu nunca mais te encontre. Talvez nunca mais você. Porque eu não disse olá, meu nome é tal e pode ser que você pense que eu enlouqueci, mas eu gostei de entrar no metrô e encontrar os teus olhos pretos me esperando, eu sinceramente não sei era para mim que você dirigia o seu olhar ou se olhava para um ponto específico, onde eu apenas entrei no quadro e você não se importou muito ou porque não percebeu ou por não ter feito diferença, como se o lugar para onde você dirigia o seu olhar, não fizesse o menor sentido naquele momento e você estivesse pensando na tua vida que eu não conheço, eu não conheço a tua vida, ou apenas observasse o vagão, as pessoas ao redor e ao entrar no metrô, eu rasgasse a tua imagem, intruso do acaso, pirata sem razão de ser. O fato é que eu sou o fulano e dizendo o meu nome, eu passo a ser aquele cara do metrô que se apresentou, era noite e inverno e enquanto eu te soprava o meu nome, lá fora a cidade estava em movimento contínuo até a próxima estação. Sabendo o meu nome e te dizer o meu nome, indicava um futuro, um desejo de futuro, se você também me disser o seu nome e a gente permitir que o sol ilumine a varanda e as portas, que se foda que todas as minhas metáforas sejam óbvias, mas se você me acusar de louco, eu viro as costas e me misturo aos passageiros, eu sumo do teu campo de visão e volto a ser quem eu era antes de dizer o caminho, antes de te indicar qualquer sinal verde. E se você sorrir e me der atenção, e se você apenas sorrir, eu vou torcer para que você me diga o seu nome, eu vou sinceramente pedir para que você me diga eu sou o fulano. Essa é a primeira informação que você vai me dar e eu vou guardar, como um segredo, desvendando a curiosidade de saber como é o tom da tua voz e mais tarde, quem vai saber, o tom da tua pele e todos os outros tons que eu vou descobrir se você permitir, se eu quiser desvendar.

Uma semana depois, eu já voltava ao metrô sem o desejo de te encontrar e talvez usar assim DESEJO, não signifique, de fato, o que eu gostaria de dizer. Não que não houvesse. Havia. Mas existe qualquer ironia quando bagunçam com a nossa esperança, que a gente perde um tanto da gana, daquela sensação que nos fortalece. A gente quebra uma asa. Até que se recupere. Uma semana depois e quando eu já não esperava mais, de fato, qualquer faísca, submerso pelo péssimo dia ou apenas submerso:

- Você sumiu.
- Você também sumiu.
- Eu senti a tua falta.
- Eu senti a tua falta.
- Loucura isso. Três dias e a gente acaba criando o hábito.
- Eu também acho.
- Depois acaba entrando numa neura de que nunca mais...
- Exato, eu também, eu falo sério, não digo só para concordar. De que nunca mais você vai encontrar alguém. A cidade, os horários, a possibilidade do desencontro é muito maior.
- Exato.

Então, por qualquer safadeza da noite, por qualquer razão fatal, o Maracanã abrigava um jogo de decisão de campeonato e no exato momento em que finalmente ele se aproximou antes que eu pudesse saber sua presença, as portas do vagão cheio se abriram e muitos torcedores entraram empurrando, de maneira que nossos corpos, tão próximos, finalmente tão próximos, foram se afastando e se misturando à multidão animada. Onde estava cheio, ficou insuportável. Onde antes eu podia perceber seu rosto e o tom da sua voz, depois houve baderna e tantos corpos quanto o vagão podia suportar. Quando chegamos à plataforma do Maracanã, eu fui empurrado para fora do metrô e eu segui o fluxo, porque tentar retornar seria ir contra a maré. Seria tentar voltar, em vão, sabendo que eu não conseguiria. Sempre disseram que a multidão é mais forte que o indivíduo e eu não pude discordar. Eu não acredito, eu pensava e repetia e quase gritava que eu não acredito e qual é a de quem decide que os fatos aconteçam? Quem determina? Como é que fica? Eu não acredito. Quando eu saí do fluxo para retornar ao metrô, eu estava sob a rampa de acesso da entrada do estádio. De lá de cima, eu pude ver a lua. Eu pude ver as ruas. Eu pude respirar e dizer eu não acredito olhando o céu escuro, sentindo o vento frio cortar o rosto. O indivíduo precisa ser mais forte que a multidão. Um jogador decide um jogo, um jogador decide um jogo.

Desci a escada. Quando eu cheguei na estação, eu senti uma mão no ombro:

- Eu me chamo Luciano e caso um avião caia ou o mar invada a cidade, esse é o meu telefone.

FONTE: COPIADO DO BLOG DO EGÍDIO "MÍNIMOS ÓBVIOS"


quinta-feira, 10 de julho de 2008

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Milton Nascimento

Link

Vinícius de Moraes - Insensatez

Insensatez

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado

Ah, por que você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade

Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

Vinícius de Moraes - A volta da mulher morena

A volta da mulher morena

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!



Rio de Janeiro, 1935

Vinícius de Moraes - Rosa de Hiroxima

A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinícius de Moraes

A medida do abismo

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
– Que grito inútil!
– Que imenso nada!

Vinícius de Moraes

terça-feira, 8 de julho de 2008

Nelson Rodrigues - algumas frases mais conhecidas

"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível"

"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem.O amor bem -sucedido não interessa a ninguém."

"As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos!" (Vestido de noiva).

"A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades."

"Não é possível amar e ser feliz ao mesmo tempo"

"Com sorte você atravessa o mundo, sem sorte você não atravessa nem a rua"

Nélson Rodrigues

Caio Fernando Abreu - "A Dama da Noite" - fragmento


"...Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada.Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter.

Afinal , trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro O Verdadeiro Amor. Cuidado comigo: um dia encontro.
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou o fora já.
Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas, envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem.
Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.
Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.


"A DAMA DA NOITE " - fragmento
Caio Fernando Abreu - em Caio D, O Essencial da Década de 1980, Editora Agir, págs. 83/87 e 88.

sábado, 5 de julho de 2008

Sobre o comportamento de Rodin em relação a Camille...


Vocês não acham que o Rodin foi um sacana?

Primeiro era ela quem fazia grande parte dos pés e das mãos das obras que ele assinava, depois foi o envolvimento amoroso que ele não teve coragem de assumir, e ainda, o irmão de Camille, o poeta Paul Claudel, sugere em alguns depoimentos, que o Rodin teria se apropriado e assinado algumas obras dela, aquando da sua loucura...
O que acham?

.fonte: uma das comunidades criadas em homenagem a Camille Claudel no site de relacionamentos Orkut- fórum.

Camille Claudel - citação


"Tatear as formas, conceber amor com doçura e só encontrar espinhos, rosa murcha, e desejo pálido. Tatear o barro, o mármore do mundo e abraçar vazio o oco do destino, aflição, vapor. Ir à foz com sede e deparar com a lama revolvendo úmida a fonte, a água clara, sujando a jóia rara".


Camille Claudel

 
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