| Em fins de 2002 foi lançado aqui em Porto Alegre, no Café do Cofre, o livro "Cartas", reunindo montes de cartas enviadas por Caio Fernando Abreu a amigonas e amigos do peito. A festa foi chique e concorrida, organizada por Luciano Alabarse, com a leitura de algumas por Eleonora Rizzo, Luis Augusto Fischer, Juarez Fonseca. As nuanceiras estavam lá pra cobrir o evento. Mas só foram descobrir o tesouro que tinham em mãos recentemente... Delícia de descoberta, porque a partir desse acervo dá para revirar as gavetas cheias de caramujos comilões, chicotinhos de vison, frangas torradas e rosas brancas, entre outras coisas bacanas que o Caio guardava para seus afetos. E daí a escancarar uma nova dimensão (nada de baixar santos, please!) em que nos vemos espelhados nas najações, mêdas - às vezes pânicas, surpresas, graças e poesias do guri, é um pulo! "Cartas" é um projeto raro. "Um luuuxo" como diria o próprio Caio. Cuidadosamente organizado por Ítalo Moriconi, o livro é uma leitura saborosa. Aliás, nesses tempos de orkuts, chats, e-pombos, sites e outros espaços cibernéticos, é fascinante pensar que Caio Fernando Abreu possa estimular o antigo (e belo) hábito de se corresponder por escrito - como ele bem o fazia pilotando uma máquina de escrever. Sem dúvida, um gesto de generosidade. Um carinho de quem escreve para quem lê, uma forma de dizer "lembro de você, penso em você, saudade de você". E uma satisfação para quem tá acostumado a abrir a caixinha do correio só para pegar contas... Intimidade e bichice Assinava suas missivas como Caio F. - era o primo intelectual da "Christiane F. drogada e prostituída". Na verdade ele se dava várias alcunhas, dependendo do momento em que estava vivendo. E seus destinatários também viravam suas vítimas: nesse jogo, a super-amiga Jacqueline Cantore era Marileeeeeeeeeeeeeeene, Luiz Arthur Nunes virava Luizar e a dramaturga Maria Adelaide Amaral se transformava na Levíssima, por exemplo. Essa debochada forma de intimidade compartilhada é o que nos aproxima do universo de Caio F., deixando a agradável sensação de sermos nós, os leitores, os destinatários das cartas (ou pelo menos a vontade de sermos...) Numa espécie de voyeurismo literário, espiamos e tomamos parte da intimidade do escritor, passando a ser o confidente a quem ele conta suas peripécias pela vida. E que intimidade... Caio se auto-denominava um devasso. Estava totalmente à vontade com suas preferências sexuais homoeróticas e queria mais era aproveitar a vida que tanto amava. Tenho trepado muito: as culpas vão se diluindo. Ser feliz é uma obrigação. A minha vida sexual tá parecendo uma versão latino-americana & gay do Mulheres do Bukowski, ando até pensando num texto chamado Os homens que eu tive. Mas de ontem pra cá me deu um enjôo total e só cometi um pequeno felácio. Caio parecia adorar o exercício de escrever cartas para manter-se em contato com seus carinhos - e fazer novos - em um tempo em que não existia e-mail e no qual as cartas poderiam demorar dias, semanas até! Ou mesmo, horrores dos horrores, não chegarem, como volta e meia ele desconfiava. Morando em diferentes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Paris) ao longo de sua trajetória, a biba não esquecia suas raízes e escrevia loucamente, caprichando no porto-alegrês, em um ritmo quase alucinante, fazendo parecer que ele se alimentava com esse hábito. Escrevia tanto para old friends quanto para se apresentar a pessoas que não conhecia (escritores, por exemplo) e expressar sua admiração. Além de familiares, ex-namos, amigos e amigas íntimas, alguns de seus correspondentes foram o próprio Luciano Alabarse, Marcos Breda, Luiz Arthur Nunes, Bruna Lombardi, Hilda Hilst, Adriana Calcanhoto, entre vários outros e outras. O Caio que surge das "Cartas" é um virginiano dedicadíssimo a seus amores, criando apelidos para cada um e demonstrando uma enorme disposição para o diálogo e a troca. Porto Alegre, mais conhecida como Gay Port Em plena década de 70, Caio Fernando Abreu declarava seu amor por Porto Alegre, e, alta sacação, passou a chamá-la de Gay Port. Olha que tri-legal essa tradução que, mesmo literal, é viadíssima! Tão cosmopolita, tinha em Porto Alegre o seu porto seguro. Afinal esta foi a cidade que o acolheu (vindo frangote de Santiago/RS para estudar na capital) e que ele escolheu pra viver no fim de sua vida de 47 anos, junto dos pais, "cuidando de rosas no jardim, fazendo canteiros com arruda, alecrim, manjericão". Ando morto de saudade de Porto Alegre, acho que vou agora no fim do mês, ficar uns 10 dias. Vou de ônibus, bem pobrinho. Basta sentar nos degraus de casa, tomar um sol com Zaél e Nair, chimarrão com bergamota (mistura explosiva), uma noitada no Lola e/ou no Ocidente, uma voltinha na Redenção, um pôr-do-sol no Guaíba - e já me sinto tri-reenergizado. Amo demais o Sul. E a relação da bicha com outras cidades era cheia de contradições, que ele traduzia flexionando o verbo "adorodeio". Chegado em Sampa, ou em qualquer outra, Caio apostava - confiante - que tudo ia dar pé. A curtição da solidão de espiar pela janela uma roseira era logo substituída pelo desejo de portoalegrense-cidadão-do-mundo, que o fazia catar os bares das Jaciiiras ou Ireeenes de bigode. Boliches que, segundo Caio, são os mesmos de Jacarta a Assunción, passando por NY. Então, dali à carta seguinte, já falava mal de Sampa, pessoas dormindo sob o Minhocão, a cidade cinza, sem plátanos e tal. Tudo porque já estava encantado pelo Rio, pra onde ia de muda para dividir apê com amigos (no começo uns santos, depois, ai que dificuldade conviver em grupo...) ou para um hotel em Santa Tereza. Nesses inícios ficava entusiasmado, e falava da cidade como meio para realização de seus sonhos, que tudo ia dar certo, com certeza, tô sentindo. Bem, finalmente estou aqui, e me sentindo muito bem, num lugar fantástico, meio tropical, meio colonial, meio bávaro. Meio muito. Estou ficando saudável, bonito & corado. Uma gracinha. Só me falta agora arrumar um Grande Amor. Assim mesmo, com letras maiúsculas. Virá logo: a cidade é mágica, sensual, afetiva, tesuda. Até que a coisa desandava e ele se desiludia, claro, mas o fato é que a bicha se divertia muitíssimo, mundo afora. Tô no sul da Noruega, depois de rodar bolsinha por Portugal, Espanha e Suécia. Te escrevo na sala de uma casa no meio de um jardim. Ouvindo Callas e fumando horrores enquanto um escravinho norueguês loiríssimo corta a grama lá fora. Toda Laika tem seu dia de Stephanie de Mônaco, baby. Laika, mas com uma alminha très chic... Uma das aflições desse escritor era o $$$ (ele usava a tecla três vezes, quando a cosa tava preta). Ganhou montes de prêmios, foi traduzido para 200 idiomas diferentes, porém grana que é bom, necas. E ele reclamava, confessava freqüentemente que a vida estava apertada. Pedia - cheio de dedos - para a mãe mandar uns pilas. E torcia para um dia ficar rico. "Ontem só tomei um café!" contou ele, quando certa feita passava por uma capital européia qualquer... Lavou pratos, fez traduções (Arghhh!!!), trabalhou na Editora Abril, no Jornal ZH, se virou como pôde. Mas sempre viveu muito modestamente. Rico não chegou a ser, mas era finésimo quando homenageado por pessoas que ele admirava, amigos como Cazuza e Marcelo Rubens Paiva. Fui ao Rio para o enterro de Cazuza. Eu o adorava - uma vez, fiquei tão exibido, ele me dedicou uma música num show do Aeroanta, era Só as mães são felizes, claro. A gente se agarrava loucamente e rolava de rir toda vez que se encontrava. Todas as horas do fim Depois de adiar "o teste" por 10 anos, Caio descobriu-se HIV positivo em 1994. Rodeado pela doçura dos pais, irmãos e amigos, com uma equipe antenada e humana de médicos homeopatas, acupunturistas e oncologistas, lutava contra infecções oportunistas enquanto "barganhava com deus tempo para escrever pelo menos mais seis livros..." Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo dizer, um dia de salto sete, outro de sandália havaiana. É preciso ter muita paciência com esse vírus do cão. E fé em Deus. E falanges de anjos-da-guarda fazendo hora extra. E principalmente amigos como você e muitos outros, graças a Deus, que são melhores que AZT. Levado pela Aids em 1996, depois de deixar uma obra que revolucionou a cena literária brasileira, Caio nos deixa uma herança bárbara neste livro... Em cada carta nos encontramos com fragmentos de seu exercício reflexivo sobre a subjetividade, o modo de vida, a bichice, a amizade e o amor. O sentimento de identidade não poderia ser maior. Um livro para rir, um livro para chorar, um livro para celebrar. |