terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Caio Fernando Abreu - fragmento


"Melhor interromper o processo no meio:
quando se conhece o fim,
quando se sabe que doerá muito mais
- por que ir em frente?
Não há sentido:
melhor escapar deixando uma lembrança qualquer,
lenço esquecido numa gaveta,
camisa jogada na cadeira,
uma fotografia
– qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir,
mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada,
e que esse nada seja áspero como um
tempo perdido."


Caio Fernando Abreu

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Decameron - fragmento


"Parecia a Salabaetto que ele estava em pleno paraíso;
mais de mil vezes fitou a bela mulher, que realmente era esplêndida;
e teve a impressão de que cem anos estavam-se passando lentamente,
antes que as servas se fossem dali,
para ele poder, por fim,
atirar-se nos braços da Senhora Iancofiore.
Depois de terem recebido de sua patroa a ordem de se irem,
as servas deixaram uma pequena tocha acesa, na sala, e afastaram-se.
A dama abraçou Salabaetto; e também ele a abraçou.
Com imenso prazer de Salabaetto,
a quem parecia que a mulher morria de ansiedade pelo seu amor,
ficou uma hora naquela situação,
desfrutando os prazeres mais delicados do mundo."


"Decameron", de Giovanni Boccaccio.
Tradução: Torrieri Guimarães

"O Amante de Lady Chatterly" - fragmento


"E, como também ele se houvesse despido na frente,
houve um perfeito colamento de epidermes ao dar-se a penetração.
Mellors penetrou-a e ficou parado dentro dela, túrgido e palpitante,
até perceber o começo do orgasmo de Constance - e não ritmou os movimento de vaivém.
Frementes, frementes, como o palpitar da leve chama,
leve e macia como pluma,
entranhas de Constance começaram a derreter-se lá dentro.
Era como o som dum sino que, de vibração em vibração, sobe do vago ao apogeu.
E Lady Chatterley não teve consciência dos gemidos e gritinhos selvagens que dava
- que deu até o fim.
Fim da parte dele, apressado demais,
sobrevindo antes que ela acabasse
- e Constance não podia acabar sozinha.
Daquela vez tudo era diferente, diferente.
Por si nada podia fazer.
Não podia retesar-se para mantê-lo dentro de si
até que o gozo sobreviesse.
Só podia uma coisa, esperar
- esperar mentalmente
e gemer ao sentir que ele se contraía,
se retraía,
já próximo a escapar à sua sucção."

("O amante de Lady Chatterley", de D. H. Lawrence. Tradução: Rodrigo Richter)



"And also he was naked in front,
there was a perfect colamento the epidermis to give up the penetration.
Mellors penetrated her and was still inside her, turgid and beating,
to understand the beginning of the orgasm of Constance - not the pace reciprocation.
Frementes, frementes as the pulse of light flame,
light and soft as a feather,
bowels of Constance began to melt inside.
It was like the sound of a bell that of vibration in vibration, rises to the height of the vagus.
And Lady Chatterley was not aware of the groans and wild little cryes that gave
- Which has until the end.
End of part of he, too rushed,
survival before she finished
- Constance and could not stop myself.
That time everything was different, different.
Could do nothing for her.
I could not screw in to keep him within herself
until the survivor enjoyment.
Only one thing could be expected
- Expect mentally
and groaning to feel that he is contracted,
is tight,
already close to escape his suction. "

D.H.Lawrence, "The lady Chatterley's lover"

"version made using Google translation"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Canção nº 5


POEMA 5

Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.

Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.

Y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.

Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.

Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.

Antes que tú poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.

Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú las oigas como quiero que me oigas.

El viento de la angustia aún las suele arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.

Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame, compañera. No me abandones. Sígueme.
Sígueme, compañera, en esa ola de angustia.

Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.

Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.


Pablo Neruda, 1924




POEM 5

For you to hear me
my words
thin themselves out, at times,
like the trails of gulls on the shore.

A necklace of bones, a crazed rattle
for your fingers smooth as grapes.

And I look at my words from a distance.
More than mine they are yours.
Like tendrils they climb my ancient suffering.

They climb, like this, inside damp walls.
It is you the guilty one in this blood-wet round.

They are escaping from my dark covert.
You pervade everything, you, pervade everything.

They live, before you, in the solitude you enter,
and are accustomed, more than you, to my sadnesses.

Now I want them to say what I want them to tell you,
for you to hear as I want you to hear me.

The winds of misery may still bring them down.
Hurricanes of dream may still make them tumble.
You attend other voices, in my voice of pain,
Cries, of ancient mouths: blood, of ancient pleas.
Love me. Don’t leave me, friend. Follow me.
Follow me, friend, in this wave of misery.

They go on being miserly, with your love, my words.
You enter everything, you, enter everything.

I make, out of all this, an infinite necklace,
for your white fingers, smooth as grapes.


Pablo Neruda, 1924
Translation by A. S. Kline

Mujer


AMOR

Mujer, yo hubiera sido tu hijo, por beberte
la leche de los senos como de un manantial,
por mirarte y sentirte a mi lado y tenerte
en la risa de oro y la voz de cristal.
Por sentirte en mis venas como Dios en los ríos
y adorarte en los tristes huesos de polvo y cal,
porque tu ser pasara sin pena al lado mío
y saliera en la estrofa —limpio de todo mal—.

Cómo sabría amarte, mujer, cómo sabría
amarte, amarte como nadie supo jamás!
Morir y todavía
amarte más.
Y todavía
amarte más
y más.


Pablo Neruda, 1923