quarta-feira, 29 de julho de 2009

O conflito entre os opostos (Krishnamurti)



Eu desejo saber se existe tal coisa chamada mal? Por favor preste atenção, venha comigo, vamos indagar juntos. Nós dizemos que há o bem e o mal. Há inveja e amor, e nós dizemos que inveja é má e amor é bom. Por que nós dividimos a vida, chamando isto bom e aquilo ruim, criando o conflito dos opostos? Não que não haja inveja, ódio, brutalidade nas mentes e corações humanos, uma ausência de compaixão, amor, mas por que nós dividimos a vida entre uma coisa chamada de bem e outra coisa chamada mal? O que há realmente não é uma mente que está desatenta? Seguramente, quando há atenção completa, isso é, quando a mente está totalmente atenta, alerta, observando, então não há nenhuma coisa como o mal ou o bom; há só um estado desperto. Bondade não é então uma qualidade, não é uma virtude, é um estado de amor. Quando há amor, não há bom nem ruim, há só amor. Quando você realmente ama alguém, você não está pensando se é bom ou ruim. Seu ser inteiro está repleto daquele amor. Só quando cessa a atenção completa e o amor, tem lugar o conflito entre o que eu sou e o que eu deveria ser. Então aquilo que eu sou é mau, e o que eu deveria ser é o denominado bem... .Olhe sua própria mente e você verá que no momento em que a mente deixa de pensar em termos de se tornar algo, há uma cessação de ação que não é estagnação; é um estado de atenção total, que é bondade.

J. Krishnamurti. In The Book of Life. (Quotes)

domingo, 26 de julho de 2009



pensador.info




"Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança.
Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora.
Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação.
Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos.
Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva.
Mas não direi nada a ninguém.
E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue.
Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante.
E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento.
Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou."


Caio Fernando Abreu

sábado, 25 de julho de 2009

Por que as pessoas escrevem?



Por que as pessoas escrevem? Já me fiz tantas vezes esta pergunta que hoje posso respondê-la com a maior facilidade. Elas escrevem para criar um mundo no qual possam viver. Nunca consegui viver nos mundos que me foram oferecidos: o dos meus pais, o mundo da guerra, o da política. Tive de criar o meu, como se cria um determinado clima, um país, uma atmosfera onde eu pudesse respirar, dominar e me recriar a cada vez que a vida me destruísse. Esta é a razão de toda obra de arte.
Só o artista sabe que o mundo é uma criação subjetiva, que é preciso escolher, selecionar. A obra é a concretização, a encarnação do seu mundo interior. Ele espera impor sua visão pessoal, partilhá-la com os outros. Se não atinge esta última finalidade, o verdadeiro artista persiste assim mesmo. Os poucos momentos de comunhão com o mundo valem esse sofrimento, pois finalmente esse mundo foi criado para os outros como um legado, como um dom destinado a eles.
Também escrevemos para aprofundar o nosso conhecimento de vida. Para atrair, encantar e consolar. Escrevemos para acalentar nossos amantes. Para degustar em dobro a vida: no momento preciso e retrospectivamente, na sua lembrança. Escrevemos, como Proust, para tornar as coisas eternas e para nos convencermos de que elas o são. Para podermos transcender nossa vida e alcançarmos o que existe além dela. Escrevemos para aprender a falar com os outros, para testemunhar nossa viagem ao labirinto. Para abrir, expandir nosso mundo quando nos sentimos sufocados, oprimidos ou abandonados. Escrevemos como os pássaros cantam, como os primitivos dançam seus rituais. Se você não respira quando escreve, não grita, não canta, então não escreva porque sua literatura será inútil. Quando não escrevo, meu universo se reduz; sinto-me numa prisão. Perco minha chama, minhas cores. Escrever deve ser uma necessidade, como o mar precisa das tempestades – é a isto que eu chamo de respirar.


Anaïs Nin